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Dia da Ciranda: Conheça a vida e a obra do mestre Antônio Baracho

Lendário cirandeiro é tido como um dos mais geniais artistas dessa manifestação cultural. A data em que nasceu, 10 de maio, foi definido em 2019 como o Dia Estadual da Ciranda

Foto: Danilo Souto Maior/ Acervo Fundarpe

Texto: Igor Gomes

“O mestre de ciranda e maracatu deve ser inventor. Criador. Compositor e autor”, dizia Antônio Baracho da Silva (1907-1988) ao falar sobre seu ofício. Tido por muitos como o maior dos mestres dessa arte, ele foi um dos responsáveis por popularizar a ciranda na Região Metropolitana do Recife, influenciando vários mestres que viveram em seu tempo e depois. Sua importância é tanta que o dia de seu nascimento, 10 de maio, foi definido como o Dia Estadual da Ciranda em Pernambuco, em 2019.

A ciranda tornou-se Patrimônio Imaterial do Brasil em 2021, e um elemento importante nesse processo foi o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) da Ciranda em Pernambuco, produzido pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) em parceria com a Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE) entre 2013 e 2014. “Trata-se de uma das manifestações culturais mais significativas de Pernambuco. O Dia Estadual da Ciranda é emblemático para celebrarmos, promovermos debates e pensarmos em políticas públicas de cultura, fortalecendo a salvaguarda desse bem cultural”, diz a Superintendente de Patrimônio Imaterial da Fundarpe, Jacira França.

Desde o início da atual gestão, o Governo de Pernambuco investiu, através da Fundarpe, R$1.454.915,25 no setor da ciranda. O valor diz respeito a contratações diretas nos ciclos do Carnaval, São João, nas edições do Festival Pernambuco Meu País, em ações dos equipamentos culturais estaduais e outros apoios a festejos locais, evidenciando uma política permanente de valorização e fortalecimento dessa expressão cultural ao longo de todo o ano, para além dos grandes ciclos festivos.

Em todos esses momentos, o nome de Baracho é reverenciado. Sua obra aparece também como elemento importante dentro do INRC, que reconhece a importância de seu trabalho e legado. “Acompanhei Baracho durante 4 anos, balancei muito ganzá enquanto ele cantava. Ele era muito grande, o mito da ciranda”, conta mestre João Limoeiro, Patrimônio Vivo de Pernambuco e fundador da Ciranda Brasileira. “Baracho foi uma grande inspiração pro meu pai, tanto no maracatu rural quanto na ciranda”, lembra Pedro Salustiano, dançarino, produtor e empresário, filho de Mestre Salustiano (1945-2008). “Presenciei muitos momentos entre eles. Às vezes, por exemplo, ele acordava meu pai no meio da noite pra contar alguma história ou pra dizer algum verso que ele criou. Era um grande improvisador, grande poeta”, continua Pedro.

Entre os artistas mais jovens que trabalham com ciranda, seu nome é influente. Em live durante a pandemia (2021), no Circuito Cepe de Cultura, o jovem mestre Anderson Miguel lembra que um dos primeiros refrões de ciranda que criou foi este: “Rei da Ciranda/ Rei da Ciranda/ Foi Baracho, grande cirandeiro/ Maracatuzeiro lá de Santa Fé/ O destino manda/ O destino manda/ Que eu seja o sucessor dele/ Ser rei como ele/ E honrar Nazaré”. O cantor e compositor Siba Veloso, em entrevista à revista Continente (2019), afirma que uma frase de Baracho, presente em um curta-metragem dos anos 1980, seria definidora para sua carreira: “Formiga vive do que carrega”. “Aquilo foi muito definidor durante meu conflito para escolher uma profissão. Baracho quis dizer que o poeta tinha que viver da poesia. Eu já sabia que queria ser músico ou artista. Mas, depois daquilo, despertei para a poesia, que é central para mim”, conta.

“A genialidade com que Baracho fazia improvisos move muitos a acreditar que ele foi o criador da ciranda e assim merecedor do respeito de mestres, mestras e da população em geral”, registra o INRC da Ciranda. Como pontua Deborah Callender em sua dissertação de mestrado em História (“Quem deu a ciranda a Lia?”, defendida em 2011 na UFPE), Baracho era tido, nos anos 1970, como um dos cirandeiros mais autênticos e tradicionais, e seu nome tinha alcance nacional, pois era conhecido entre quem acompanhava de perto a música popular brasileira no período. Era conhecido, já naquele tempo, como “o rei sem coroa”.

Esse reconhecimento coincide com o auge dessa manifestação cultural na Região Metropolitana do Recife (RMR), pois na década de 1970 e na anterior foram realizados os Festivais da Ciranda do Recife. Esses eventos davam visibilidade a essa arte e faziam circular o trabalho dos grupos e mestres, mas também de aproximar as formas de dançar e tocar ciranda da Mata Norte e da RMR, apesar das várias diferenças ainda existentes – a mais evidente delas é que, na Mata Norte, o ritmo é mais rápido e agitado, enquanto na RMR ele é mais lento e suave, acompanhando o embalo das ondas do mar.

A Mata Norte é o lugar de origem de Baracho, mas é a praia o cenário de sua composição mais famosa, conhecida na voz de Lia de Itamaracá: “Eu estava na beira da praia/ Ouvindo as pancadas/ Das ondas do mar/ Essa ciranda quem me deu foi Lia/ Que mora na Ilha/ De Itamaracá”. Segundo mestre João Limoeiro, Baracho tinha uma namorada em Itamaracá chamada Lia e esses versos foram inspirados nessa mulher, que não seria a famosa cirandeira, mas uma senhora homônima. A autoria dessa composição foi disputada pela própria Lia de Itamaracá, mas entre os cirandeiros parece prevalecer a versão de que o criador foi Baracho. Apesar dessa disputa, Lia e as duas filhas cirandeiras de Baracho, as mestras Severina (1953-2025), conhecida como Biu, e Dulce, cantam juntas há mais de 20 anos. “Ela [Lia] é a rainha, meu pai é o rei”, disse Dulce Baracho em vídeo de 2023 para o Paço do Frevo.

“Quando ele chegava, os outros cirandeiros ficavam com medo”, garante mestre João Limoeiro. “Uma vez, teve um jogo do Sport e Santa Cruz, e o Sport meteu 5, o Santa não fez gol nenhum. No mesmo dia, teve uma apresentação e Baracho subiu ao palco. Aí ficaram com medo que ele cantasse a goleada, e claro que ele cantou”, ri o cirandeiro.

Essa história indica a importância de Baracho para outros artistas e suas qualidades como improvisador, mas também aponta para a inteligência dele na forma de cativar o público. Isso fica mais evidente em outro causo. Conforme registra Deborah Callender, uma matéria do Diario de Pernambuco, publicada em 1975, conta uma história sobre Baracho, ocorrida em um festival de ciranda realizado em 1972. O evento, promovido pelo Sport Club do Recife e patrocinado pela Pitú, deveria decidir qual o maior cirandeiro do Recife. Baracho sobe ao palco e canta: Sou Baracho/ o cirandeiro afamado/ Arrespeitado desde o Norte até o Sul/ Eu digo a tu/ não mexa na minha sorte/ pois meu time é o Sport/ e minha cachaça era a Pitú”. Ele venceu, mesmo revelando uma informação no evento: seu time do coração era o Santa Cruz. Ou seja, ele agradou, com versos, ao público, ao realizador do evento e ao patrocinador, o que mostra seu tino comercial e também a força de sua arte, moldada para animar todos os envolvidos sem perder as qualidades poéticas que a caracterizam, como em um jogo ou brincadeira, acrescentando imaginação à realidade para vencer demandas.

Até o começo dos anos 1980, os engenhos eram locais importantes para a ciranda, mas a migração de moradores fez com que essa manifestação cultural passasse a ser fortemente associada às praias e a locais como o Pátio de São Pedro, no centro do Recife. Em meados da mesma década, os quase 20 anos de sucesso dos festivais de ciranda foram encerrados, sem que voltassem a ser realizados. Baracho viveu todo esse movimento, mas o amplo reconhecimento de suas qualidades de artista não se converteu em sucesso financeiro: ele faleceu em 5 de maio de 1988, empobrecido, após anos de saúde fragilizada, condição relacionada, entre outros fatores, ao consumo de álcool e cigarro. Consumou-se a previsão que ele mesmo fez no curta-metragem visto por Siba Veloso nos anos 1980, veiculado pela TV Viva e disponível no YouTube: “Agora fico bem satisfeito. Porque morro, [mas] meu nome fica na História. Como um rei sem coroa”.

Foto: Silla Cadengue/ Fundarpe

TRAJETÓRIA – A vida de Antônio Baracho não é documentada, então o que se diz dele vem das lembranças de amigos e familiares, além dos poucos registros deixados. Existem, portanto, diversas imprecisões sobre sua trajetória. Sabe-se que nasceu em 10 de maio de 1907, era mestre de maracatu rural e de ciranda. “Ele começou a cantar ciranda com 8 anos de idade”, contou mestra Severina Baracho (1953-2025) – conhecida como Biu, filha do mestre –, em vídeo gravado para a Ocupação Lia de Itamaracá, no Paço do Frevo. “A ciranda veio da palha da cana”, afirma mestra Dulce Baracho, irmã mais velha de dona Biu, com quem formava a ciranda As Filhas de Baracho. Quando indagada sobre o que significa essa frase, ela responde brevemente que o pai tirava ciranda (ou seja, criava os versos) enquanto trabalhava no eito cortando cana, indicando que ele teria sido não apenas o criador dessa manifestação cultural, mas também “quem botou ciranda no comércio”, ou seja, seria o pioneiro na transformação da ciranda em meio de sustento.

Mas, em entrevista ao Jornal do Commercio em 1978, o próprio Baracho afirma que a ciranda chegou depois em sua vida. “Morava em Nazaré da Mata. Meu causo era o maracatu. O maracatu eu comecei com 10 anos de idade. Era mestre. A ciranda eu descobri porque quando eu saí de Nazaré da Mata, tá fazendo 21 anos, aqui não dava maracatu. Eu tinha que viver da minha veia [de] poeta e inventei a ciranda”. A matéria, cujos trechos são reproduzidos por Deborah Callender na dissertação citada, ainda informa que ele era analfabeto e que sustentava a família com o que ganhava de sua arte. Era um homem alto, negro, magro e de braços grandes “de varrer a rua”, diz Dulce Baracho.

“Meu pai foi muita coisa”, lembra a filha do mestre. “Trabalhou em roçado, casa de farinha, corte de cana, mestre de alambique e por aí vai”. No curta-metragem citado, o próprio Baracho afirma ter sido mestre de açúcar do Engenho Santa Fé, em Nazaré da Mata. João Limoeiro também diz que ele foi “mestre carreiro” no Santa Fé. “E depois de sair do Santa Fé, fomos morar em Goiana e depois em Abreu e Lima, onde ele ficou. Antes de Nazaré, ele morou em Carpina, que foi onde eu nasci. A falta de trabalho fez a gente se mudar. O engenho virou usina, o corte da cana acabou. Ele foi pra Goiana ver se tinha emprego, mas moramos pouco lá, e a gente foi pra Abreu [e Lima] e aí ficou. Ele trabalhava pavimentando pista”, continua mestra Dulce.

A família chegou na cidade nos anos 1950. “A gente veio morar aqui [em Abreu e Lima] quando ainda se chamava Maricota. Então, fomos morar no Alto da Bela Vista, na casa de um amigo do meu pai. Aí, todo final de semana, pai fazia uma ciranda. Isso pagava o aluguel, já se tirava daquele dinheiro que se apresentava”, lembra dona Biu, em vídeo gravado para as redes sociais da Prefeitura de Abreu e Lima. Dulce Baracho afirma que sua mãe, Josefa Maria da Conceição, não tirava ciranda: “achava bonito, mas não ia muito”. Dos filhos do casal – Duda, Maria, Dulce, Lia e Severina –, apenas ela e Biu deram continuidade ao legado do pai (“Lia também cantava, mas depois foi pro Rio e voltou evangélica, não quis mais”, diz).

No auge da popularidade da ciranda, o mestre gravou o álbum Baracho e seus cirandeiros (1976). Em seus últimos anos, ele comparecia às cirandas, mas quem cantava eram as filhas. “Quando Baracho adoeceu, ele fez o último pedido a meu pai”, lembra Pedro Salustiano. “Ele queria ser enterrado em Nazaré da Mata. A família não queria, mas meu pai conversou com as filhas e convenceu. Ele faleceu no que era o Hospital Central de Paulista. Foi velado na sede do Maracatu Piaba de Ouro, já na nossa sede da Cidade Tabajara”.

No depoimento para a Prefeitura de Abreu e Lima, dona Biu conta como as coisas se deram após o falecimento do pai: “A gente parou. Depois de um tempo, apareceu Beto [Hees, produtor], com Lia de Itamaracá, gravou [que tinha gravado] umas cirandas de Baracho. Pensavam que não tinha mais ninguém da família. [...] Ela veio procurar a gente para pagar os direitos [autorais], resolver [isso] porque ela tinha gravado. Aí Beto – o empresário de Lia de Itamaracá – convidou eu e minha irmã pra gente ficar acompanhando Lia [mesmo] tendo a ciranda da gente, As Filhas de Baracho, e fazendo backing vocal pra Lia”. Acompanhando Lia, mas sem deixar de ter a própria ciranda, elas visitaram diversos lugares e chegaram a se apresentar em uma edição Rock in Rio.

Mestra Dulce continua a se apresentar mesmo após o falecimento de dona Biu, em dezembro de 2025. Ela diz que seus filhos não brincam ciranda. “Mas uma bisneta minha de 8 anos, Maria, tá dizendo que quer substituir a tia-bisavó”, completa a artista, pontuando a necessidade de mais visibilidade para a ciranda e os cirandeiros de Pernambuco. Ainda assim, a roda continua a andar, sem esquecer o caminho aberto pelo velho professor – ou, como diz a canção “Baracho”, do Coco de Toré Pandeiro do Mestre: “Baracho/ eu acho uma roda que anda/ uma corda de ciranda/ que parece nunca acabar”.

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