Entre canções do “exílio”
Postado em: Literatura

Morando 18 anos fora do Brasil, José Luiz Passos (direita) falou sobre o processo de escrita dos seus romances
por Leonardo Vila Nova
Em que medida estar distante do seu país lhe modifica o modo de enxergá-lo, de percebê-lo? Que signos e símbolos deste lugar podem ser acionados quando o ser criador se encontra assentado em outra realidade cultural, social, territorial? Algumas dessas questões vêm à tona quando nos colocamos diante da figura do emigrante, do “exilado”. Para falar um pouco disso, o escritor José Luiz Passos, pernambucano que há 18 anos mora na Califórnia – onde leciona Literatura na Universidade local -, participou de um bate-papo com o jornalista Schneider Carpegianni, nesta quarta (7), no II Clisertão. Durante a conversa, Passos falou um pouco sobre o processo criativo dos seus livros, “Nosso grão mais fino” e, em especial, “O sonâmbulo amador”, romance que, no final do ano passado, lhe sagrou como o principal ganhador do Portugal Telecom, prêmio de literatura destinado a obras em língua portuguesa.
“Certamente, o fato de eu estar fora muda a minha percepção do país, não sei se pra melhor ou pior do que as pessoas que ficaram aqui. Mas, certamente, isso tende a me influenciar a representar histórias de sujeitos que estão em deslocamento, em trânsito“, explicou Passos. Ambos romances se passam em Pernambuco – mesmo tendo sido escritos quando ele já estava morando fora do Brasil – e empreendem um enredo em que relações de crise são uma constante. “Personagens num contraponto entre passado e presente“. E é a humanidade dessas personagens, eixo central de suas histórias, que mais lhe estimulam a criar. O seu maior interesse é na humanidade plena dessas personagens, que recorrem o tempo inteiro a recursos externos a ele, como imaginações, lembranças, conversas interiores.
As narrativas de Passos se orientam por um fluxo territorial e psicológico de seus personagens – em “Nosso grãos mais fino”, os amantes da história vivem entre uma usina de açúcar e o Recife; em “O sonâmbulo amador”, o personagem principal, Jurandir, entra em surto durante uma ida sua à Olinda, e ele passa a recorrer à anotações de seus sonhos para reencontra-se consigo mesmo e com sua realidade. Esses trânsitos, essas conexões, talvez, queiram significar os trajetos feitos por ele mesmo em uma metáfora onde o reencontro com suas memórias afetivas – a terra onde nasceu -, estejam impressas em seus romances como o canto de um exilado, que recorre a uma terra que, onde quer que ele vá, inevitavelmente, está dentro dele e de sua obra.
Todos emigram
Após o bate-papo com José Luiz Passos, outro emigrante subiu ao palco do II Clisertão. Para encerrar a noite desta quarta (7), o poeta, cantor e compositor Lirinha apresentou o espetáculo “Poesia eletrônica”. Uma compilação de autores da poesia popular nordestina, envoltos por manipulações sonoras eletrônicas e um diálogo entre memórias, palavras, sons e tecnologia.
Hipnotizante em palco, Lirinha interpretou poesias diversas, com uma interpretação que lhe é peculiar. Trouxe um calhamaço de papeis que queriam servir como um roteiro de sua apresentação. Mas, à medida em que ia tecendo uma coerente cronologia, suas memórias afetivas, dos tempos em que ouvia Chico Pedrosa na Rádio Cardeal Arcoverde (Z-Y-B / 2-6) e que ia aos festivais de pelejas poéticas, ia atropelando o roteiro e a espontaneidade foi tomando conta do espetáculo. Entre histórias diversas sobre poetas e suas formas de criar, Lirinha ia atualizando suas lembranças e emendando galopes à beira-mar, sextilhas, entre outras modalidades. Zé da Luz, Inácio da Catingueira, Manoel Filó, Pinto de Monteiro e vários outros foram lembrados por Lirinha.
“Quando lancei meu primeiro disco solo, disseram que eu havia perdido minhas raízes”, contou. Há alguns anos morando em São Paulo, as experiências na maior metrópole brasileira o fizeram ampliar seu repertório de possibilidades poéticas, mas, na verdade, aguçaram seus traços mais populares, um sotaque forte, rasgante e a desenvoltura na declamação. “Nós não somos como árvores, que tem suas raízes fincadas no chão. Nós andamos, nos deslocamos, nossas raízes são aéreas”, disse Lirinha, ao lembrar, também de Alberto Cunha Melo, que, entre tantos poemas, escreveu um que caiu como um luva para as impressões daquela noite e que pode ser resumida num verso: “Todos emigram!”
