Entrevista: Andreia Joana Silva
Postado em: Literatura
por Leonardo Vila Nova
Portuguesa radicada na França, Andreia Joana Silva é uma “militante” do movimento cartonero, que tem ganhado força nos últimos anos. Mas, muito antes disso, ela compartilha, com tantos outros escritores – dos continentes africano, europeu e americano, neste último caso, o Brasil – o fato de falar em língua portuguesa, num mercado em que essas distâncias territoriais (assim como algumas questões editoriais) acabam provocando entraves na circulação da literatura entre esses países.
Ela participa, às 16h40, do debate “Lusofonia: mito e paradoxo”, junto ao escritor angolano Abreu Paxe, ao poeta português Luís Serguilha e ao professor Alexandre Furtado, da UPE. Em entrevista para o Clisertão. O encontro irá problematizar a questão de língua portuguesa na literatura de países lusófonos tão diferentes, e como ela os aproxima e os difere.
Em entrevista para o Clisertão, ela adianta algumas posições sobre o assunto do debate.
Clisertão: Participam do debate “lusofonia: mito e paradoxo” você, Alexandre Furtado (professor da UPE), o poeta Luís Serguilha e o escrito Abreu Paxe. Um brasileiro, dois portugueses e um angolano. Onde/como essas culturas (e suas literaturas) se encontram, além da língua?
Andreia Joana Silva: O ponto comum é a língua, não o podemos negar. Se pensarmos em países como São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde, Angola, Moçambique e Guiné Bissau, o que há de comum entre eles é uma das línguas oficiais (o português), o passado colonial comum e o fato de serem nações jovens (devido a este passado comum). O Brasil é um caso diferente. Creio ser forçado tentar encontrar pontos comuns atuais nas literaturas de língua portuguesa, para além das perspectivas pós-coloniais partilhadas. A meu ver é na língua, e na diversidade e riqueza que daí advém, que estes países se encontram.
Clisertão: Apesar de falarem a mesma língua – guardadas as devidas peculiaridades regionais – pouco se conhece, no Brasil, da literatura portuguesa e de outros países lusófonos. Quais os principais entraves que você acredita existirem na difusão e circulação de literatura entre países de língua portuguesa?
Andreia Joana Silva: Creio que são questões puramente editoriais. A publicação e circulação do livro em alguns países é ainda deficiente. Eu, por exemplo, tive imensas dificuldades em diversos momentos da minha vida, emencontrar livros cabo-verdianos, são tomenses, etc. Encontrei-os em países “alheios” à língua portuguesa (como na Alemanha, na Holanda, etc.), onde eram publicados em língua portuguesa. Contudo, não eram distribuídos nem em Portugal nem no Brasil. Em situações destas, tomamos consciência que os mercados editoriais (e as políticas culturais também) são diretamente responsáveis por estas questões.
Clisertão: Quais as estratégias que podem ser adotadas para estimular um intercâmbio mais intenso dentro do mercado literário lusófono no que diz respeito ao público consumidor?
Andreia Joana Silva: Para começar, introduzir nas escolas e nos manuais escolares textos em português de todos os países lusófonos. Ensinar às crianças, e aos adultos, que o território da língua portuguesa é vastíssimo e riquíssimo (em vocabulário, sintaxe, imaginários-simbólicos, etc.) e que há ainda muito a ser explorado, lido e estudado. Recentemente, tem havido nos meios acadêmicos uma grande profusão de estudos sobre o pós-colonialismo nas literaturas africanas lusófonas, dando-nos a descobrir variados autores e autoras e abordando perspectivas até aqui postas à parte. Infelizmente, esse tipo de estudo, essas abordagens ficam na Academia e nunca chegam ao grande público. O que chega ao grande público é, mais uma vez, decidido pelos grandes grupos “editorial-econômicos”!
Clisertão: No caso do Brasil e de Angola (além de outros países africanos), há uma profusão de outras línguas e dialetos que se amalgamaram à língua portuguesa e que fizeram com que cada país desenvolvesse um vernáculo muito próprio. Você acredita que o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa realmente tem uma eficácia no sentido de unificar uma linguagem para todos esses países ou ele ainda se mostra ineficiente, dadas as diferenças regionais, bastante arraigadas?
Andreia Joana Silva: As “diferenças regionais” como você lhe chama, sendo tantas e tão variadas, existirão sempre dado ao vastíssimo território no qual se fala a língua portuguesa. Um dos estandartes do acordo era a unificação e a manutenção de uma ortografia única em todos os países de língua oficial portuguesa. Contudo, foi um acordo condenado à nascença, pois os seus propósitos estavam muito para além da simples unificação (aliás, basta ler o texto do acordo ortográfico, para constatarmos a manutenção de duas grafias em variadíssimos vocábulos, sem qualquer sustentação linguística e tendo porbase decisões arbitrárias, a meu ver).
Clisertão: Além dessa questão linguística, você acredita que exista alguma semelhança no discurso literário e na estética que aproxime esses países, localizados em continentes diferentes (América, África, Brasil)?
Andreia Joana Silva: Seria extremamente triste e redutor atribuir um discurso literário comum ou uma estética comum a todos os países de língua portuguesa (quando isso nem sequer se verifica nem num mesmo continente, nem num mesmo país). Quanto mais variantes dialetais uma língua tem, mais rica ela é.
Clisertão: Quanto à questão territorial, há uma sensação de que Brasil e Portugal desenvolveram, em suas literaturas, um tipo de abordagem aberto a questões mais amplas e universais, enquanto os países africanos tem uma tendência maior a abordagens mais locais. Você enxerga diferença na forma como esses países vivenciam e relatam suas identidades em suas literaturas?
Andreia Joana Silva: Sem dúvida. Justamente pelo que já referi anteriormente as identidades culturais nestes países são muito marcadas. A forma de ver e sentir o mundo é forçosamente diferente, mesmo havendo uma língua comum. As identidades literárias foram forjadas ao longo de anos e séculos (no caso brasileiro e português) evoluindo em sentidos diferentes e comuns, dependendo do caso.
