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Luís Serguilha e a experiência do mergulho

“Poéticas e línguas de fronteira: des-territorialização, multiplicidade, des-enraizamento, hibridizações e nomadismo”. O tema da conferência com o poeta português Luís Serguilha evoca, sobretudo, o que está fora de lugar, a transgressão, o sair da zona de conforto. Para Serguilha, poesia é isso: estranhamento, produção de singularidades, intensidades, estilhaços, mergulho. Mas a conferência dele foi ainda mais que isso. Serguilha é hipnótico. A sua fala na noite da terça-feira foi de uma potência impressionante. Toda a filosofia que percorre, sempre carregando cada frase de alegorias, é como um grande recital poético. As palavras têm textura, sua entonação é emocionada.

Às vezes é difícil saber onde exatamente quer chegar. Ele diz que não quer chegar a uma resposta, porque não há resposta para a poesia. E nesse quebra-cabeça de imagens e referências filósoficas (claramente amparado, sobretudo, em Deleuze e Derrida), Serguilha consegue arrebatar e fazer-nos pensar sobre poesia de modo poético.

“A literatura é como a água. Onde está o dentro, onde está o fora?”, e com essa provocação revela aos presentes que tanto para escrever quanto para consumir literatura é preciso mergulhar nessa água e “injetar os olhos de sangue”. Também coloca a poesia como não-literatura. “Eu acho que poesia não é literatura, é uma espécie de queda cósmica, mas não pertence à literatura, mas a uma força de deformação e não de formação. É uma coisa que faz de nós trapezistas, faz de nós um caos harmonioso”, explica. Também diz que considera Guimarães Rosa e Osman Lins, por exemplo, poetas e não prosadores. “Grande Sertão não é um romance”, provoca.

Serguilha também tocou em questões relacionadas  a lingua e territórios, exaltando, por exemplo, o nome de autores como o brasileiro Douglas Diegues, que trabalha com uma mistura de português e espanhol, criando um espaço único.

No final da conferência, que estava sendo mediada pelo escritor Delmo Montenegro, o poeta recitou um trecho de seu livro mais recente, chamado KOA’E. No vídeo que segue, Serguilha faz uma nova leitura do trecho especialmente para o site do Clisertão. Abaixo também, a transcrição do trecho lido.

Os degraus circundantes dos rochedos-pianistas recompõem as encruzilhadas das câmaras meteorológicas e os guardiões dos pianos-fortes, a exposição dos perfumes-da-vertigem narra e afronta a termodinâmica dos nomes albergados nos calendários tectónicos (dizem ser os sulcos libidinais do sol-vulcânico): a irreversibilidade das arenas-do-delírio despoja os predadores-seminais entre as pegadas das vertentes maternais, a silabaria elementar das estacas voadoras pigmenta os oráculos dos estômagos estelares, rusticidade-dos-eixos-imaginários sob os dançarinos das árvores-libertas-de-gêlo: as desventuras dos olhares-dos-glaciares são dentes fulgurantes da terra-divina-verbal-terra a trabalharem a incandescência milenar dos alvos-das-escoriações-das-correntes-do-vento entre os joelhos crepusculares das técnicas de caça e os mercadores-policromos das amoreiras: a perspectiva-dos-fragmentos de Godard e as abreviaturas-das-armações-dos-nómadas de Kusturica atingem a blusa iridescente do coração-da-tempestade, as bússolas desidratadas esgrimem um alpendre invisível na mensurabilidade da superfície que descruza as corolas-das-primeiras-aprendizagens como um nó desfocado da ave a lavrar as estratégias anfíbias da dor do DEVIR: colo extraído das mulheres-das-janelas prematuramente amordaçadas pela velocidade das porcelanas da luz:

os fios indecifráveis dos olhares-minerais fragmentam as ressonâncias imprimidas nas respirações nocturnas dos pássaros: as distâncias dos helicópteros-teares escondem a vegetação-dos-viadutos porque dedilham as coincidências dos mugidos das esfinges entre os formigueiros de ar e a apoteose dos mapas do historiógrafo, as simples algibeiras das lãs das bicicletas terrestres estagnam os interstícios das chuvadas-dos-aérodromos-das-bifurcações-mutáveis onde o borbulhar indivisível da tarde-das-execuções-dos-estomas entra profundamente no pressentimento das salinas-dos-percursos-alternativos como um enxame-anguloso nos decibéis dos búfalos a delimitar os candeeiros das casas-da-metamorfose: provisórias dissemelhanças dos espasmos-das-clarabóias a encarcerarem os reflexos das instantâneas gargantas-das-feras, Schoenberg: motores das vésperas iluminadoras entre as escamas inomináveis das orquestras: os refúgios-moleculares das suburbanas iluminuras chapinham as exclamações dos corredores-dos-viajantes e tudo se separa na caligrafia envidraçada das industrializadas abelhas: TRANSFIGURAÇÃO dos tentáculos voadores_____________ Lautréamont sob os olhos-das-lâminas que embalam os vapores das pontes subterrâneas como minúsculas persianas dos simulacros a estilhaçarem o soro das madeiras-radículas-do-chamamento, as asas-das-artérias-das-faíscas são uniformemente mastreadas pelo petróleo das sombras de Fritz Lang, os mármores das manjedouras navegam nos rebordos-da-exaustão das cancelas-espasmódicas que devoram as hélices dos instrumentos da translucidez, jugos metálicos na origem das sondagens dos ângulos/pulsos-das-tentativas do firmamento, as luzes das traqueias alfandegárias adubam a desarrumação dos apeadeiros-dos-bois até às simulações dos trombones magmáticos:

acumular os espontâneos esmeris nos barulhos subterrâneos dos esquifes e as bacias-dos-peixes-da-autenticidade trepidam em debandada na epopeia dos hospitais dos gladiadores-de-tentáculos: alfabeto desmemoriado das hiantes casas-dos-lobos-da-geografia, um cântico-das-extremidades é interrompido pelas transições da penúria do cobre da sonolência, os êmbolos-dos-diques-da-barbárie tentam descer até às sentenças das improvisadas tonas das escalas/lenhas-glandulares-dos-seres para assistir à viuvez dos arcos-boreais de Saint Pierre: ligar o balouço hemorrágico do coração-dos-rebanhos às taças musgosas do vocalismo das intempéries que desvendam os fósseis das antropomorfias na orgia dos luzeiros-dos-pântanos-de-arribação: as poses nómadas das esmeraldas-dos-gigantescos-semáforos são espremidas pelos espaldares ininterruptos dos insectos de Franz Kafka onde se constrói um regaço oblíquo de ligaduras-de-flechas sobre a primeira prenhez dos frutos: as tapeçarias das germinações fotografam o trabalho-ócio das chispas dos poços-das-iguanas: eléctricas heras a emborcarem as fissuras citrinas dos insectos nos ofícios milenários: os fornos cromados de dentaduras aparam a salsugem-das-rugas-dos-alguidares que esvoaçam nos seixos dos abismos-urbanos, ilustrações dos cais derramadas nas lengalengas secretas dos arquitectos-chacais, procurações-telegráficas sopradas pelos cadafalsos dos favos-dos-arabescos e as luzes das colcheias vergastam as edições das sementeiras como os ímanes dos minúsculos açudes a injectarem as vogais das lebres acossadas nas naves-arco-íris dos Sonhos de Akira Kurosawa:

os braços glaciares estocam os parênteses das trombas entardecidas pelas fotografias imprevistas das janelas, obsessivos viajantes a naufragarem no abandono apurado da floração (dádivas transgressoras dos olhos-dos-pântanos-de-outras-colecções): os historiadores das ardósias confessam o endereço da flecha-dos-abecedários nos insectos rutilantes dos balneários, as ramificações das cisternas dos utensílios repetem-se nos dormitórios dos motores-das-montanhas (a erecção irrecuperável das lanternas dos estábulos diante dos Cavalos do Significado): os zumbidos dos roteiros das fábulas são coreografados pelas pausas dos barqueiros proverbiais de Merce Cunningham, os carpinteiros-néons das janelas desentranham cinematograficamente as barbatanas de outras janelas onde as gemas das tecedeiras astrais absorvem as palmadas giratórias do aguaceiro: celebridade das estilhas a despojar os atilhos da obliquidade dos respiradouros: os contrastes instintivos dos soalhos solicitam a queimadura dos frutos e os cavadores das coincidências entre os talos dos secadouros nocturnos: os harmónios sibilinos das câmaras-da-astronomia anotam o vidro do desregramento na crispação das pistas do sangue das últimas corujas, os contrafortes dos formigueiros atravessam os golpes elípticos dos canaviais como a voluptuosidade do incêndio azul a fundir-se numa invasora jangada (A jangada das medusas): ramificar uma casa de águas com as protecções-membranares do ancoradouro: os bandos embriagados-da-linguagem ascendem das baforadas imberbes-insondáveis, imprevistos armistícios-dos-estilhaçamentos onde os vasos sanguíneos dos pássaros resplandecem abobadados nas fronteiras alucinadas das árvores: as inexpugnáveis raízes dos corvos fecundam as batalhas das trevas (Dario Argento nas avenidas-dramáticas do electrochoque) no vaivém das amêndoas crepusculares (iluminuras das especiarias orientais de Yasujiro Ozu)

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