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Quando o papelão vira arte e o catador olha nos olhos

Por: Maria Peixoto

Pri Buhr

Pri Buhr

Os olhos vivos de Núbia Bezerra

O que escritores têm a ver com catadores de papelão? Para a literatura cartoneira, tudo. Projeto de colaboração entre esses dois profissionais, a ideia dos cartoneiros é a de produzir livros a partir dos princípios da sustentabilidade e do comércio justo, tendo como matéria-prima o papelão: “Uma caixa de papelão não é só uma caixa de papelão. As caixas, as pessoas jogam fora. E nós olhamos bem, colocamos na mesa e descobrimos coisas belas”, diz Washington Cucurto, do selo Eloísa Cartonera.

O Eloísa Cartonera foi o pioneiro do movimento que já se expandiu por vários países da América Latina e Europa, tendo seus representantes também no Brasil. Washington Cucurto (ARG), Nicolas Duracka, do selo Cephisa Cartonera (FRA) e a portuguesa Andrea Joana Silva, também atuante no movimento visitaram na manhã de hoje (24/7) a associação de catadores de papel daqui de Garanhuns, a Asnov. Lá, eles puderam conhecer integrantes do selo garanhuense, Severina Catadora, criado o ano passado, durante encontro promovido pelo FIG, entre os catadores e o coletivo Dulcineia Catadora, de São Paulo.

A ideia deste ano é impulsionar a produção iniciante e promover aqui em Garanhuns, nesta quinta (25/7) e sexta (26/7) o I Encontro Internacional de Literatura Cartoneira, que trará, além dos 3 já citados, mais 3 escritores internacionais de editoras cartoneiras para dialogar entre si e com o coletivo local recém criado.

No encontro de hoje, os escritores falaram da importância dos catadores, que apenas fazem as capas dos livros, apropriarem-se deles, que também os leiam, “a gente não pode transformar isso num processo mecânico de apenas produzir capa”, diz Washington Cucurto. “E quanto mais independentes vocês ficam, melhor. Esse projeto é de vocês, vocês têm autonomia pra criar, pra crescer com isso”, alertaram os escritores.

“A ideia não é disfarçar, esconder o papelão, é mostrá-lo como ele é. Isso como escolha política. Fazer de uma forma simples, que todo mundo possa fazer”, afirma Washington. Cada capa é única. Vocês têm que sentir o livro que estão a fazer, acrescenta Andreia Joana Silva.

Núbia Bezerra, de 48 anos, participou da oficina o ano passado e conta que ensinou aos demais, “os novato têm que aprender, porque amanhã a gente num tá aqui. Eu num gosto de ser só eu, é um ambiente cooperativo”. Há 10 anos ela é catadora, “entrei no projeto “Retome sua vida”, que era pra dona de casa que tinha criança no Peti. Aí vim pra cá, gostei e fiquei”. Ela me explica a função social do seu trabalho “você tá limpando o meio ambiente e educando a sociedade”. Apesar disso, os catadores sofrem com o preconceito, conta Núbia, “tem dona de casa que diz ‘tem lixo não, tem esmola não’. Eu digo, “não moça, é coleta seletiva”. “Mas eu num abaixo a cabeça não. No começo eu abaixava, pensei até em desistir. Agora, mais não”, diz a mulher dos olhos vivos.

Núbia conta da surpresa que teve o ano passado quando descobriu que ia fazer um livro, “eu achei meio esquisito, eu vou fazer livro? Mas achei bom demais. O grupo ficou muito reconhecido. Deu um novo ânimo, agregou valores pra nós”, afirma.

Fazendo circular e agregando valor a um material descartado, o projeto também é a oportunidade de que os catadores também se sintam valorizados numa sociedade em que são invisibilizados. “No lançamento do livro você olha olho nos olhos das pessoas”, diz Núbia, acrescenta, “Agora eu me sinto, sou igual a vocês”.

Além disso, a produção agrega valor material a esses profissionais. “Se o grupo fizer 100 livros por mês e vender, irão aumentar a renda mensal de cada um em 100 reais”, lembra Nicolas Duracka. Núbia também conta que o ano passado eles venderam 80  livros, que foi a melhor fase financeira que passou, conseguindo  embolsar R$500, enquanto sua renda não passa dos R$150, 200.

“O importante é desde o começo fazer a coisa bem. Os números são consequência”, afirma Washington.  “O livro é uma desculpa para vocês estarem juntos, compartilhar a vida, sentar, conversar”, diz Nicolas.  Umas das catadoras confirma, “a gente tá fazendo isso aqui, tá esquecendo os problemas”. Viviane lembra da influência que podem ter sobre as crianças, “através desses desenhos em capas, as crianças se interessam, os filhos têm vontade de ler”.

Algumas necessidades  para o grupo também foram sinalizadas, envolver mais os escritores da cidade, encontrar um espaço onde as pessoas pudessem vê-los produzindo, onde pudessem expor seu trabalho. Pergunta Núbia: “na praça Guadalajara num ficam vendendo Cd? Por que a gente não pode vender nossos livros?”. Quando questionada sobre o que gostaria que os livros falassem, ela, que até agora só leu as 3 primeiras páginas do livro que fez, o Severina Catadora diz que tem vontade de “passar pra um escritor a história da associação, as dificuldades, as alegrias”. E finaliza “quando nós ficava na praça a gente era catador, depois a gente chegou na praça das palavras”.

 

 

 

 

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