Torre Malakoff abre três exposições de arte contemporânea nesta quinta (4)
Com entrada gratuita, mostras individuais de Renato Valle, Gustavo Pimentel e Carolina Drahomiro inauguram calendário de artes visuais da Torre em 2026
Postado em: Artes Visuais | Espaços culturais
Alê Tiburcio/Fundarpe

Mostras de Renato Valle, Gustavo Pimentel e Carolina Drahomiro seguem abertas até 16 de agosto
O Observatório Cultural Torre Malakoff, equipamento gerido pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), abre um novo ciclo de exposições nesta quinta-feira (4), com o lançamento de Entremeios, projeto que reúne 3 mostras individuais. Assinadas pelos artistas Renato Valle, que completa 50 anos de carreira em 2026, Carolina Drahomiro e Gustavo Pimentel – que lançarão suas primeiras individuais na ocasião –, os três trabalhos são diferentes em termos de proposta e técnicas, mas se aproximam por elaborarem, de forma geral, o tema da memória. As três exposições ficam abertas até 16 de agosto, com entrada gratuita.
Em sua primeira edição, o projeto Entremeios foi criado para misturar públicos de perfis distintos. “Com essas 3 mostras tão diferentes entre si, proporcionamos às pessoas uma experiência que permite o aprendizado do olhar. A Torre Malakoff é um observatório cultural, então a ideia é criar, para os visitantes, experiências a partir dessa proposta. Não há muitos equipamentos públicos com esse perfil, então queremos explorar isso ao máximo”, sintetiza Carol Chaves Madureira, da administração da Torre.
O projeto Entremeios visa acolher, em geral, exposições incentivadas por editais públicos, como os da Lei Paulo Gustavo, Funcultura ou Lei Aldir Blanc. “A Torre Malakoff é um espaço aberto a essas propostas, e existe uma curadoria pra recebê-las”, afirma a gestora.
“Crônicas do Recife Antigo”, de Renato Valle, é composta de 20 desenhos a grafite, com tamanhos entre 7 x 20 cm e 65 x 50 cm. Ao trazer representações tanto do Carnaval quanto, por exemplo, de pessoas em situação de rua, as imagens propõem uma discussão política sobre a ocupação desse bairro, que é um dos principais cartões-postais da capital pernambucana. As cenas, por vezes, se resumem às pessoas, animais e símbolos sociais (como placas de estacionamento) que ocupam o espaço do bairro. O trabalho, que começou em 2015 e a princípio se ocuparia do Carnaval no Recife Antigo, foi concluído recentemente como um conjunto de crônicas visuais sobre esse espaço. Assim, a mostra debate a atualidade de questões sociais que remontam à formação do país.
“Essa série é muito ligada à questão política, porque ela revela o fracasso do modelo de sociedade que nós criamos. Nós criamos um modelo de sociedade perverso, excludente; desde o início da formação desse país é assim. Isso me incomoda demais. Não acredito que o trabalho vá mudar as pessoas, mas ele provoca discussões a respeito do assunto”, afirma Renato Valle.
Paisagens e vida também estão presentes em “Vereda interior”, primeira mostra individual de Gustavo Pimentel, incentivada pela Lei Paulo Gustavo. Com 136 fotografias – das quais 3 foram impressas em tecido, compondo grandes bandeiras –, a exposição traz imagens feitas ao longo de aproximadamente 20 anos em viagens de Gustavo por cidades do sertão pernambucano, como Ouricuri, Salgueiro, Carnaíba e Triunfo. A exposição trabalha a memória de maneira mais sutil, pois não há nelas indícios evidentes da passagem do tempo; esta se revela por meio de mudanças na sensibilidade do artista ao retratar as luzes, cenários e moradores sertanejos. “Vereda interior” tem curadoria de Mateus Sá.
“A fotografia acompanhou por um longo tempo – se não me engano, mais de 18 anos. Essa coisa de você crescer junto com a fotografia, em uma evolução que é uma coisa só, isso se mostra nas imagens mais pela técnica do que pela representação, que é atemporal, na essência”, pondera Gustavo, que já venceu duas vezes o Prêmio Pernambuco Nação Cultural (2011 e 2012).
Em sua primeira individual, a artista Carolina Drahomiro partiu de um episódio familiar para construir os trabalhos da mostra “Hoje eu subi numa pilha de livros para estar à sua altura”. A exposição é fruto de pesquisa artística que contou com incentivo do Funcultura e orientação projetual de Beth da Matta.
Segundo conta a família da artista, a avó materna de Carolina teve que subir em uma pilha de livros para tirar a foto de casamento. A história foi contada por parentas que não presenciaram a cena. A lembrança não foi vivida pelas pessoas, mas marca a trajetória delas enquanto família, o que levou Carolina a trabalhar com o conceito de pós-memória, termo cunhado por Marianne Hirsch que, grosso modo, discute o papel de reminiscências na vida de quem não as viveu, mas as herdou.
A partir disso, a artista celebra a desobediência de mulheres usando ferramentas historicamente permitidas a elas (ferro de passar roupa e espelhos, por exemplo), por meio de técnicas diversas – são 40 trabalhos entre instalação, desenho, videoperformance, colagem e fotografia.
“Eu percebi que era importante trazer essa história, partir de uma coisa que é vivenciada no meu íntimo para um campo mais coletivo”, explica a artista, ressaltando que deseja tocar especialmente as mulheres que visitarão a mostra. “Não só tocar: eu quero que elas adentrem; na verdade, eu quero que elas se percebam nessa realidade”, completa.
OBSERVA E ENTREMEIOS – Com três edições já realizadas, o edital Observa foi criado para mapear novos artistas e dar oportunidade para eles realizem mostras individuais. A cada edital, são concedidos 5 prêmios – na última edição, cada ganhador recebeu um prêmio de R$ 15 mil. A maior parte dos inscritos no Observa são artistas contemporâneos, o que faz com que as exposições ligadas a esse edital ganhem visibilidade dentro do mercado de arte, e isso vem transformando o Observatório Cultural Torre Malakoff em uma vitrine para a cena artística contemporânea do Estado.
Já o projeto Entremeios reúne exposições que, diferentes entre si, ocupam a Malakoff ao mesmo tempo. Entremeios é dedicado à variação de linguagens e poéticas artísticas e ocorre entre as edições do edital Observa. Trata-se uma seleção curatorial feita pela gestão do equipamento e pela Gerência de Ações Culturais da Fundarpe dos projetos recebidos pela Torre, incentivados, em geral, por editais como Funcultura, Lei Paulo Gustavo ou Lei Aldir Blanc.
OBSERVATÓRIO CULTURAL TORRE MALAKOFF – Espaço consolidado de exposição da arte contemporânea em Pernambuco, a Torre Malakoff é um equipamento cultural gerido pela Fundarpe e localizado no Bairro do Recife, área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A edificação foi construída no século XIX, com materiais provenientes da demolição do Forte do Bom Jesus, para servir como observatório astronômico e portão monumental do Arsenal da Marinha. O caráter militar da Torre está presente em sua fachada e na simetria de sua planta, que também lembra a arquitetura das mesquitas.
No ano 2000, a Torre foi transformada em espaço cultural, inicialmente com destaque para a música e a fotografia. São 8 espaços de exposição, além de salas educativas e administrativas. Na área externa, há um anfiteatro que sedia eventos.
SERVIÇO
Crônicas do Recife Antigo | Vereda interior | Hoje subi numa pilha de livros para estar à sua altura
Abertura: 4 de junho (quinta-feira)
Visitação: 5 de junho a 16 de agosto | Terça a sexta-feira, das 10h às 17h; Sábados e domingos, das 14h às 18h
Entrada: Gratuita
Endereço: Praça do Arsenal da Marinha, s/n, Bairro do Recife – Recifea
Telefone: (81) 3184-3180
E-mail: torre.malakoff@gmail.com