Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Carnaval 2018

75 anos de J. Michiles em ritmo de frevo

Com cinco décadas dedicadas à música, J. Michiles é um dos homenageados do Carnaval do Recife que, nesta sexta-feira (9), celebra o Dia do Frevo com show no Marco Zero

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Homenageado do Carnaval do Recife deste ano, J. Michiles completou 75 anos no último dia 4 de fevereiro.

Camila Estephania

Para fazer frevo, é preciso ser um homem do povo. É por isso que J. Michiles não sabe dizer se anda com os ouvidos bem abertos por causa do ritmo ou se faz música porque sempre foi atento ao que acontece na rua. Homenageado pelo Carnaval do Recife deste ano, o compositor, que completou 75 anos nesta semana, passou a virar sinônimo de frevo quando estourou nas ladeiras de Olinda com a música “Bom Demais”, gravada por Alceu Valença no disco “Estação da Luz”, de 1985, revelando uma obra que transformava em música verdadeiras crônicas sobre a vida dos foliões na festa.

Exemplo disso é a música “Vampira”, que também fez sucesso na voz de Alceu, seu mais constante intérprete, e narra a cena do encontro entre dois foliões, que Michiles assistiu em pleno sábado de Carnaval de Olinda. “Levei um trote/ Em plena multidão/ Ela me deu um bote/ Bem no meu cangote/ Me botou no chão/ Naquele alvoroço/ Mordeu meu pescoço/ Parece mentira/ Aquele beijo foi um beijo de vampira/ Mordeu, mordeu/ Quase me devora/ Logo foi embora/ Fiquei sem saber o seu telefone, seu nome, e agora?/ Vampira, cadê você?”, diz a letra sobre o inusitado episódio do beijo no pescoço entre os dois desconhecidos.

“Eu estou sempre em contato com o povo, gosto de ouvir as conversas nos bares e nas barracas, enquanto tomo caldo de cana e como bolo de bacia. Compor para mim é tirar essa emoção das ruas para depois retribuir em música, melodia e letra”, explica ele, sobre a fidelidade de suas músicas ao espírito pernambucano. Para Michiles, a inspiração é algo que surge espontânea e repentinamente, mas claro que tanta naturalidade para fazer versos não surgiu do nada.

Sobrinho do cantor Orlando Dias, que foi um dos heróis da Era do Rádio a partir da década de 1940, J. Michiles cresceu em uma família que o cercava de música. Desde criança, acostumou-se a ouvir mestres como Capiba, Luís Bandeira, Nelson Ferreira, Carnera, Zumba, Jackson do Pandeiro, dentre outros nomes que foram incorporando o frevo-canção e a música popular a sua formação como compositor. Embora suas primeiras composições pertencessem à outra seara, como o bolero “Você Me Maltratou”, interpretada por Vitor Bacelar, em 1962, e “Não Quero Que Chores”, que foi sucesso na Jovem Guarda gravado pelos Golden Boys, em 1964, não demorou até que Michiles encontrasse no frevo sua maior expressão.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Compacto dos Golden Boys que trazia a gravação de “Não Quero Que Chores”

“Eu estava visitando meu tio no Rio de Janeiro, quando soube que as inscrições para o Festival Uma Canção Para o Recife de 1966 haviam sido adiadas por conta de uma pequena cheia. Resolvi participar com a música ‘Recife Manhã de Sol’ e fui até o aeroporto do Rio com a partitura pedir para alguém que fosse para o Recife a levasse. Por coincidência, a primeira pessoa que encontrei morava em uma rua próxima a da minha namorada na época e meu cunhado levou até o local da inscrição, fui o último a me inscrever”, relembra ele da própria sorte, que ainda concretizou a premonição do ditado que diz que “os últimos serão os primeiros”.

Vencendo concorrentes como Luís Bandeira, Ademar Paiva e a parceria entre Capiba e Ariano Suassuna, J. Michiles ganhou o festival com “Recife Manhã de Sol” na interpretação de Marcos Aguiar, que anos mais tarde ganhou versão de Maria Bethânia. A partir de então, não parou mais de participar de festivais e enriquecer o cancioneiro da música popular nordestina. Embora já conhecesse Alceu Valença antes mesmo do cantor explodir na década de 1980, foi somente quando o cantor comprou uma casa em Olinda que os laços entre os dois se estreitaram. Em uma das conversas, Michiles cantou “Bom Demais” para o artista de São Bento do Una, que resolveu gravá-la iniciando uma das dobradinhas mais famosas da música pernambucana.

“Até então, o frevo andava meio adormecido, mesmo com o grande projeto Asas da América, de Carlos Fernando. Foi só a partir de 1986, com ‘Bom Demais’, que o frevo caiu na boca do povo de novo”, explica ele, que passou a engatar um sucesso atrás do outro. A convite de Alceu, Michiles foi ao Rio no mesmo ano para assistir a um show do cantor, que também ofereceu um sarapatel na sua casa para os amigos. No encontro, Michiles aproveitou para cantar uma de suas novas músicas, intitulada “Me Segura Senão Eu Caio”, imediatamente acatada por Alceu, que gravou a faixa no disco “Rubi”, lançado no mesmo ano, garantindo mais um hino para o Carnaval de 1987.

Outro sucesso estrondoso, “Roda e Avisa”, feita em parceria com o maestro Edson Rodrigues em homenagem a Chacrinha, também rendeu momentos emocionantes para Michiles. “Quando Cazuza esteve pelo Recife e ouviu a letra, ele chorou, porque tem um verso que diz ‘a vida é um sonho que vai terminar e o bom palhaço não chora e vai embora sem explicar’. Ele veio me dizer que era o palhaço que já estava no fim da vida. Ele foi até a casa de Alceu e pediu para que ele cantasse a música”, comenta ele, evidenciando a delicadeza nem tão oculta por trás da alegria do frevo.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

O compositor planeja lançar os discos “Asas do Forró” e “Asas do Frevo” ainda este ano.

“O difícil é fazer o fácil. O fácil é aquela música que você escuta pela primeira vez e já sai cantarolando e o que bem caracteriza isso no frevo pernambucano é o contratempo de suas frases rítmicas. É a síncope que o diferencia da marcha e do dobrado. Desde menino, eu já trazia esse ritmo no sangue, já havia internalizado isso”, explica ele, que sempre entrega as composições com o esqueleto da introdução instrumental (“é o cartão de visitas da música”) e com os compassos dos versos bem definidos.

“Diabo Louro”, “Queimando a Massa”, “Fazendo Fumaça”, “Forró Fogoso”, “Pernas Pra Que Te Quero”,  “Sonhos de Pierrô”, foram alguns dos vários títulos que vieram na sequência consolidando o espaço de J. Michiles não só com o frevo, mas também com outros ritmos nordestinos. Gravado já por nomes como Almir Rouche, André Rio, Elba Ramalho, Fafá de Belém e Claudionor Germano, o compositor agora planeja lançar dois discos em 2018.

O primeiro deles é o “Asas do Forró”, que deve chegar às prateleiras logo após o Carnaval trazendo 12 faixas de autoria do pernambucano, entre inéditas e regravações, como “Estrela Gonzaga”, gravada por Dominguinhos em 1993. Para depois do São João, o artista planeja lançar o “Asas do Frevo 2”, que também trará novas composições e algumas regravações. Esse último trabalho dá continuidade a primeira edição do projeto, lançada em 2007, contando com interpretações de nomes como Daniela Mercury, Silvério Pessoa, Geraldo Azevedo, Maria Bethânia, Lula Queiroga e Alceu Valença.

“Eu estou sempre fazendo frevo. Fiz agora o frevo para os 40 anos do Galo da Madrugada, por exemplo. Acordo, almoço e janto pensando em música, especialmente o frevo, essa é minha rotina”,  resume ele que, depois de mais de 20 anos trabalhando paralelamente como professor da rede estadual, desde 1991 se dedica exclusivamente a música.

SHOW DE J. MICHILES NA ABERTURA DO CARNAVAL DO RECIFE
Sexta-feira, 09/02
Marco Zero | 21h
Com a Transversal Frevo Orquestra, do seu filho César Michiles, e participações de nomes como Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho

< voltar para home