Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Cultura popular e artesanato

Da mistura de povos e brincantes

Como Águas Belas celebra, no Carnaval, a origem do Brasil

Por: Chico Ludermir

Ricardo Moura

 

Já faz mais de 500 anos que, no Brasil, se encontraram negros, brancos e índios. Se é no Carnaval que se revelam as manifestações de uma tradição misturada – e se relevam todo o sofrimento que esteve por trás deste encontro – é em Águas Belas, no Agreste pernambucano, onde essa mistura se torna emblema.

Cidade com mais de 6 mil índios da etnia Fulni-ô e duas comunidades quilombolas, Pião e Tanquinhos, o Domingo de Carnaval de Águas Belas é deles. De um lado, concentrando-se no sindicato dos trabalhadores rurais do município, o Bloco Zumbi, que homenageia o mártir negro. Do outro, saindo do Ponto de Cultura Fulni-ô, o Bloco Beija-flor, composto por índios na cadência de suas maracas. Os dois se encontram no começo da noite, na praça principal da cidade. Numa metáfora forte das raízes fundantes do País.

Mas é pouco tangível falar de encontro de etnias, ou de cores. Os ritmos que se misturam são de ancestralidades distintas, é verdade. Os sangues carregam tradições de diferentes origens, fato. Mas os olhares que se cruzam e as mãos que se tocam e se abraçam são as das pessoas. Vivas. Hoje.

Na frente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, fundada na primeira metade do século 20, trocam e dividem o mesmo terreno Josias do Coco e Matinho Fulniô; Dona Estelita e Towé.

Na década de 1950, João Rosaldo da Silva ganhou ainda novo, de Zezinho da Prestação, o apelido de Josias do Coco. Nascido e criado em Tanquinhas, Josias sai ao lado de outros 1 mil brincantes dos dois quilombos e dos 18 assentamentos e três acampamentos da região, e é dos poucos representantes vivos da pisada do samba de coco.

Como é comum escutar dos mais velhos, Josias partilha a lembrança de quando se pisava o chão das casas de taipa. Levantavam os esteios, cruzavam as varas, traçavam o barro. “Quando aguava a terra, começava o samba, umas 7h da noite. Só parava no às 7h da manhã do dia seguinte”, relembra a tradição, que se foi junto com esses tipos de moradia. “Era com pandeiro e ganzá e o pé. Ficava tão liso quanto cimento”, conta ele, que tem mais de 50 anos de cantoria. E até pouco tempo não passava um mês sem cantar.

 

Do Pião, quilombo vizinho, Dona Estelita Maria de Lira, 73 anos, também é presença no Bloco do Zumbi. Trabalhava na roça ao lado das oito irmãs e apenas um irmão. E plantava milho, feijão, algodão, mamona. Até hoje, quando chove, fica aperreada querendo plantar. Mas não pode, porque fica cansada.

“Quando ia fazer uma ‘taipagem’ de casa, chamavam a gente pra carregar água. Matava o porco de véspera. No outro sábado, já sabia que era pra terminar. Ainda ajudei a pisar duas casas minhas, além das de muitos outros que dividem o mesmo chão. Nos quilombos, era sempre assim. As casas todas ‘pisunhadas’”.

No Carnaval, a festa relembra os tempos de escravidão. “Minha mãe, mesmo, sofreu muito. A polícia foi até buscar ela um dia de pés. Eu conheci também a minha avó, uma velhinha magrinha. Me lembro da cantiguinha de samba que ele tinha.” E, então, ela canta, com a voz baixinha, parte pela vergonha, parte pela emoção.

“Cajueiro abalou, menina se querer vamos,

não te ponha a imaginar,

quem imagina cria medo.

quem tem medo não vai lá.

Ô menina, lá em casa tem um pé de cajueiro,

tem um toco de baraúna, que faz sombra no terreiro.

De madrugada, quando os passarinhos cantam,

tem um ranço na garganta,

cajueiro, cajueiro”.

Do outro lado da pequena Águas Belas, encontramos os misteriosos Fulni-ôs. Os índios se preservam em segredos e receios. Lembram muito bem uma história de opressão branca que, por pouco, não acabou completamente com a cultura das aldeias.

No Ouricuri, terra sagrada, não entram brancos. Lá eles passam cerca de três meses em rituais, todos na luz de candeeiro, sem energia elétrica. São eles também que ainda têm como língua primeira o yatheé.

Mas no Carnaval todo mundo pode ser um pouco índio e sair com eles no Bloco Beija-Flor. Todos pintados, com flechas e outros artesanatos indígenas. Hoje são mais de 3 mil seguidores da agremiação iniciada em 2010.

São maracás, pífanos tocando samba de coco e cafurna, além de alguns tipos de toré de festa. Os dos rituais ficam guardados. “Balançou a maraca todo mundo sabe dançar”, afirma Aderlindo, ou Lylyssaká, que significa o pássaro periquito em yatheé. Lylyssaká é o presidente do bloco que sai pela quarta vez em 2013.

“Este ano a gente tá com alguns problemas. A estiagem de dois anos tá fazendo todo mundo ficar menos animado. Até mesmo para tirar as pinturas do corpo é complicado. Não temos água”, relata, enquanto puxa um cachimbo de fumo de corda misturado à semente de imburana.

Passando do outro lado da rua, um homem com cabelo muito preto e franja cortada muito curta chama a atenção do demais. Matinho, ou Setiká, folha de mato, em Yatheé é chamado com alegria pelos demais. “Matinho! Matinho!”, gritaram. E ele veio.

Matinho é do grupo Fetxá (Sol) que se apresenta no Carnaval e rapidamente nos demonstra a força de seu canto e dança. Matinho canta, pisa e toca pífano, incrivelmente ao mesmo tempo. Como se fosse possível. “Pezinho pra frente, pezinho pra trás”, brinca, enquanto ensina, simplificando.

“A cultura da tribo Fulni-ô nunca se acaba, porque somos uma tribo guerreira”, conta Towé (fogo), que tem um grupo de cafurna, ritmo indígena. No Carnaval cada índio quer ficar mais bonito que o outro e se pintam de festa com carvão, genipapo e urucum. É tempo de festejar o índio, o negro, o branco. O encontro histórico e cotidiano.

 

< voltar para home