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Cultura popular e artesanato

Dona Glorinha faz coco para brincar o São João no Amaro Branco

No dia 22 de junho, Dona Glorinha do Coco organiza a sua sambada de coco de São João pelo décimo ano, na Rua dos Pescadores, no bairro de Amaro Branco, em Olinda. Além da coquista, o evento também reunirá outros representantes do ritmo e até banda de forró pé de serra.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

A sambada de coco de Dona Glorinha no São João é uma iniciativa para repassar as tradições para a comunidade de Amaro Branco.

Por Camila Estephania

A relação de Dona Glorinha do Coco com o São João é ancestral. Há dez anos, a coquista resolveu retomar a sambada de coco junina que a mãe promovia na calçada de casa, na Rua dos Pescadores, em Amaro Branco, com o objetivo de resgatar não só a própria história, mas também a do bairro olindense. E foi por respeito às tradições do lugar que Dona Glorinha marcou sua festa neste ano para o dia 22 de junho, a partir das 21h, no Dia do Coco, de forma que não competiria com a tradicional sambada de coco de Dona Maria José, no dia 23. “Se a gente puder, a gente vai à sambada dela também, que é para fortalecer o ritmo. Não quero rivalizar com ninguém”, explica ela, que também tem sedimentado a sua própria tradição.

Filha de Maria Belém, Dona Glorinha acompanhava a mãe nos cocos desde os sete anos de idade e logo compreendeu a importância da matriarca na comunidade, onde até hoje tem o nome associado à movimentação cultural local. A morte da mãe em 1981, seguida pela perda do marido e de duas filhas, encaminharam Dona Glorinha para uma vida mais reservada e focada no sustento da casa e da família nos anos seguintes. O retorno às atividades como coquista demorou, mas aconteceu em um 2007 agitado, quando participou do documentário “O coco, a roda, o pneu e o farol”, de Mariana Brennand, cujo material abriu caminho para ela ser convidada para a coletânea “Coco do Amaro Branco Vol. 2” no ano seguinte.

Até 2007, Dona Glorinha estava no ostracismo. Eu nem a conhecia, mas já conhecia Ana Lúcia, Dona Jovelina, Dona Neuza (as duas últimas falecidas), aí não tinha como eu não chegar nela, porque Maria Belém é um ícone aqui no Amaro Branco”, comenta Isa Melo, que integra a banda de Dona Glorinha e produz seus discos. A brincante relembra que após a fama de Chico Science e Nação Zumbi, o coco foi um dos ritmos que ficou em evidência no Estado, o que deu abertura para sucessos como “A Rolinha”, de Selma do Coco, despertando a curiosidade das pessoas para toda a produção do Amaro Branco, incluindo Dona Glorinha.

Jan Ribeiro

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O coco é um brinquedo tradicionalmente associado às comemorações de São João.

A RAIZ DO COCO

Mas o resgate da coquista só poderia ser completo com a reorganização da sambada de São João na porta da casa da Rua dos Pescadores, onde vive desde que nasceu. “Essa é a grande festa do ano para mim, porque são três santos que a gente comemora: São João, São José e São Pedro. Tem Santana também, mas as pessoas não lembram dela, que é a mãe de Nossa Senhora. Se eu passo um dia de São João dormindo, perdi o ano, o mês de junho todinho”, comenta ela, que reativou a comemoração em 2008. Neta de uma escrava fugida, a coquista herdou a carga cultural da avó, já que a relação dos ex-escravos com o São João remonta à própria origem do coco.

Com a colonização, os portugueses vieram pra cá e trouxeram os padres para fazer a cabeça de índio e de quem mais estivesse por aqui. Os primeiros colonizadores que vinham do reino para morar aqui traziam consigo toda uma carga religiosa, como o culto aos santos. Então, vieram as primeiras procissões que comemoravam o São João em junho. As pessoas saiam com capelas de flores na cabeça, cantavam, tomavam banho no rio e, com o passar do tempo, outros elementos foram se agregando a essa procissão, em que todo mundo podia participar. Os negros levavam seus batuques, os índios participavam com suas idiossincrasias, cada um acrescentava. Essas procissões entravam na igreja e o padre abençoava, mas o negócio foi ficando tão animado que o profano imperou e elas passaram a ser barradas. Essa brincadeira que veio junto, as pessoas chamaram de coco. Penso que o Acorda Povo que a gente tem hoje é uma corruptela dessas primeiras procissões”, avalia Isa.

Jan Ribeiro

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A festa acontece na Rua dos Pescadores, onde a coquista vive desde que nasceu.

COCO DO AMARO BRANCO

Conhecido pela concentração de vários grupos de coco, o bairro do Amaro Branco, antes mesmo de ser oficialmente criado em 1925, já era um dos principais endereços de Pernambuco onde estavam pescadores, negros livres e escravos refugiados, como a avó de Dona Glorinha, não é à toa que acabou se tornando referência no ritmo. “Ninguém queria vir para cá antigamente, porque era um bairro de negros, mas como começou a se destacar, as pessoas passaram a frequentar aqui. Por conta de todas essas lutas que a gente vem desenrolando para acabar com o preconceito, hoje, as pessoas já têm outra cabeça. Vêm muitos jovens para cá de todo canto, vem gente de carrão, de carro de mão, gente branca, azul. Vem gente de todo tipo”, observa Isa, sobre a mudança de imagem do Amaro Branco ao longo dos anos.

O reflexo desse interesse crescente pela cultura do bairro também repercute na sambada de São João de Dona Glorinha que, a cada ano, atrai mais espectadores. “De uma ponta a outra dessa rua, você não encontra espaço sobrando para colocar um pé, de tanta gente”, comenta a coquista que, na festa do ano passado, reuniu cerca de 500 pessoas. A festa que vai até o amanhecer, ainda conta com outras atrações como Cila do Coco, Coco de Umbigada, Coco do Pneu, As Morenas, A Cocada, Trio de Forró Pé de Serra, entre outros convidados.

Jan Ribeiro

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Dona Glorinha organiza a sambada na calçada de sua casa e atrai um grande público para toda a rua e proximidades.

Fruto de uma época em que o coco ainda não dava retorno financeiro, Dona Glorinha faz a sambada a partir de uma iniciativa particular em que aluga toldos e som contando também com a colaboração de amigos. “Antigamente, o coco não tinha esse negócio de receber dinheiro. A gente fazia as coisas por amor à brincadeira. Onde a gente chegava nem água na jarra pra beber tinha, mas a gente brincava até o dia amanhecer no chão de barro. Quando a gente terminava, os pés ficavam cheios de poeira”, relembra ela, que não descarta a importância do cachê atualmente para viabilizar a continuidade do trabalho, mas também não quer ficar refém dos convites para brincar o coco nesta época do ano.

Se não acontece esse tipo de iniciativa, a gente vai perder a essência da nossa cultura. A gente ganha com os shows, mas dentro da comunidade é importante que as pessoas venham participar e cantar, mesmo que não tenham dinheiro. É para manter a tradição viva e para que a gente tenha uma história cultural para passar adiante. Se a gente não tiver cuidado, ou se descaracteriza demais ou então desaparece, porque a turma fica desmotivada”, completa Isa. Aos 83 anos no papel da coquista mais velha em atividade em Pernambuco, Dona Glorinha carrega consigo essa missão de perpetuar o ritmo: “minha mãe dizia muito a mim: minha filha, quando Deus me chamar, você vai ficar no meu lugar. E eu fiquei, tô aqui”, diz ela.

Jan Ribeiro

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Isa Melo é integrante da banda de Dona Glorinha e produtora de seus discos.

FUTUROS PASSOS

Discípula da velha guarda do coco, Dona Glorinha agora se prepara para lançar seu segundo disco, planejado para chegar ao público no dia 3 de setembro, quando fará 84 anos. “Antigamente, se cantava coco e não tinha microfone, fazia gosto de ver: o ganzá, a zabumba, a garganta da gente e muita palma no salão. Hoje em dia, tem coco de roda até com sanfona”, observa ela, ao destacar que ainda hoje busca manter a mesma proposta estética de outrora.

Claro que também incrementamos o coco de Glorinha, porque temos que ter essa visão artística e fazer com que o trabalho dela fique mais bonito, mas é sem descaracterizar”, explica Isa, que está a frente da produção do álbum. O novo trabalho ainda não tem título definido e contará com cocos inéditos escritos por Dona Glorinha, além de composições de sua mãe, Maria Belém, e outras de domínio público.

O primeiro disco de Dona Glorinha, o homônimo de 2013, já está esgotado, mas terá uma nova tiragem produzida neste ano com incentivo do Governo do Estado, através do Funcultura. O trabalho que concorreu ao Prêmio da Música Brasileira faz um registro de outros cocos compostos pela sua mãe.

SERVIÇO:
Sambada de Coco de São João de Dona Glorinha
Quando: Dia 22 de junho, a partir das 21h
Onde: Rua dos Pescadores – Amaro Branco/Olinda
Gratuito

Jan Ribeiro

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Dona Glorinha comemora o reconhecimento atual do seu trabalho.

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