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Cultura popular e artesanato

O casal ilustre de Belém de São Francisco

Conheça o que dá vida aos bonecos gigantes mais antigos do Carnaval brasileiro.

Por: Dora Amorim

Foto: Renato Spencer/Santo Lima

Foto: Renato Spencer/Santo Lima

Zé Pereira e Vitalina simbolizam o Carnaval da cidade

Com olhos verdes e uma roupa branca com detalhes em amarelo, rosa e laranja, além de babados carnavalescos e um chapéu, Zé Pereira é mesmo uma figura imponente. A sua história e a de Vitalina são conhecidas no local e contadas de cabo a rabo, das crianças até os mais velhos. Todos se orgulham dos bonecos e de Gummercindo, o seu criador.

Influenciado pelas histórias do padre belga Noberto Phalempin, a respeito de figuras gigantescas em formato humano que acompanhavam as procissões na Europa para chamar a atenção dos fiéis, o jovem Gummercindo Pires de Carvalho decidiu criar as suas próprias criaturas. Só que para animar uma festa profana: o Carnaval.

Folião por vocação,  Gummercindo mudou a celebração de Pernambuco através da figura de Zé Pereira, criado em 1919. O boneco foi nomeado graças a outro folião apelidado de Zé Pereira – um português que trouxe ao Rio de Janeiro o costume de tocar bumbos nas troças carnavalescas, em pleno século 19. Dez anos depois, foi a vez de Vitalina, boneca loira e de olhos azuis (o Homem da Meia Noite, primeiro boneco de Olinda, nasceu logo depois, no ano de 1932). “Zé Pereira estava sozinho, então Gummercindo resolveu criar uma esposa para acompanhá-lo no Carnaval. Chegou a haver um casamento entre os dois para celebrar a união”, lembra Pedro Rodrigues, o cuidador dos bonecos.

Ricardo Moura

Ricardo Moura

Pedro Rodrigues é o cuidador dos bonecos

Há mais de 15 anos exercendo a profissão, Pedro se lembra dos anos de menino, quando acompanhava os gigantes ao lado do seu pai e dizia para todos que um dia ainda cuidaria deles. Acertou. “Gosto muito do trabalho de cuidador, fico feliz quando estou com os bonecos. Gosto dos bonequeiros, eles são pessoas que me atendem. Fora do Carnaval, qualquer hora que chegar um turista para conhecê-los, mostro sem problema. No Carnaval, fico do lado preparando, vejo se tem algum defeito. Na verdade, não só deles, como dos outros, temos mais quatro bonecos”. Durante o ano, as alegorias ficam guardadas em uma sala da Secretaria de Assistência Social do município, com as roupas do ano que passou. Em 2013, as vestes, e toda a festa do município, homenageiam o folião João Pio da Silva, conhecido na região.

Além de Zé Pereira e Vitalina, o Carnaval de Belém ainda é animado por mais quatro personagens: Dona Alzira, Negro d’Água, Galo e o Padre Noberto Phalempin. A primeira, Dona Alzira, era uma foliã bem conhecida dos moradores da cidade: “Alzira foi uma senhora carnavalesca, por sinal minha tia, que pulava muito Carnaval em Belém. Ela começava a brincar uma semana antes. Ia para os clubes e pulava o Carnaval com a saia cheia de dinheiro e ninguém mexia em nada”, confirma Pedro. O Negro d’Água foi criado em homenagem ao personagem homônimo, uma lenda que povoa as margens do Rio São Francisco. Segundo a história, muitos acreditam que o Negro d’Água mora nas águas do rio e tenta virar as embarcações dos pescadores. Já os bonecos do Galo e do Padre homenageiam, respectivamente, o Galo da Madrugada do Recife e o padre Noberto Phalempin, cuja história, como se disse, está ligada às agremiações da cidade.

FESTA

Como bons foliões, Zé Pereira e Vitalina desfilam durante todo o Carnaval de 2013. Na verdade, a festa começa na quinta-feira da semana pré-carnavalesca até a Terça-feira de Carnaval, sem dar trégua aos foliões e turistas – só no ano passado, mais de 60 mil pessoas estavam em Belém no período.

A saída de Zé Pereira e Vitalina também é tradicional entre os belenenses: “Eles vêm das ilhas de barco, a tradição diz que eles estão vindo ‘das Europa’ até Belém para celebrar o período de Momo. Ao chegarem no Cais, toda a cidade está esperando por eles, ao som do frevo, e os bonecos seguem até a Avenida Central”, narra Pedro.

Juracir Gomes Pereira, de 28 anos, leva há 10 Zé Pereira nas costas. Desde criança, acompanhava a saída dos bonecos, depois começou a trabalhar na segurança até ser chamado para ser bonequeiro. Juracir assume que é difícil se divertir na agremiação carregando quase 40 quilos, mas ainda assim se orgulha do trabalho: “É uma alegria, aonde eles chegam é festa!”, lembra. O segredo para conseguir carregar os bonecos durante todos os dias? Uma cerveja ou uma lapada de cana: “Se me der cachaça, Zé Pereira dança e pula sem parar”, diz sorrindo. Já o amigo Renato de Assis da Silva, 28, é o bonequeiro responsável por Vitalina há nove anos. Tímido, ele diz baixinho que a melhor festa de Belém é o Carnaval: “Sem comparação!”.

Para tudo ficar pronto a tempo, a preparação é intensa. Enquanto Pedro arrumava Zé Pereira e Vitalina para a grande festa, na manhã daquela segunda-feira, quando visitei a cidade, três costureiras estavam preparando a roupa de Dona Alzira. Representantes da prefeitura – a responsável pelos bonecos –, costureiras e o cuidador passaram o final de semana trabalhando sem parar. E ninguém reclamou, muito menos Pedro. Durante o Carnaval e nas semanas que o antecedem, os seus filhos, como os chamou, são prioridade. Depois de tantos anos na cola dos bonecos gigantes, Pedro provavelmente se despede da folia de Momo e do trabalho neste Carnaval, pois deve passar a responsabilidade para outra pessoa.

“Estou nesse trabalho há mais de 15 anos, fui um grande folião também. Queria continuar, mas acho que não vou puder por conta da saúde, estou com um problema seríssimo de coluna. Acho que esse ano vai ser o meu último, pois onde eles estão eu estou no pé, é cansativo. É um prazer que eu tenho, é uma coisa que eu gosto, todos são os meus filhos! Uma vez eu fui para São Paulo e não passei o Carnaval aqui, fiquei doente. Estou sentindo que não vou conseguir, mas quem sabe? Deus é que vai dizer”, afirma e abaixa a cabeça mudando de assunto para não vermos que está emocionado.

Depois da conversa, Pedro sai da Secretaria de Assistência Social e finaliza a arrumação dos seus bonecos/filhos na frente da casa. Tira as sacolas de plástico das mãos, colocadas para evitar sujeira, arruma a calça e a saia, coloca o chapéu de Zé Pereira e alisa os cabelos de Vitalina. Ele ainda ajuda Juracir e Renato a colocarem os bonecos nas costas e fica de longe observando eles saírem pelas ruas. Pedro, assim como toda a cidade de Belém do São Francisco, cuida dos seus gigantes com um carinho que encanta e intriga quem é de fora.

“Os bonecos de Olinda são mais estruturados do que os daqui, eles são mais leves e bem feitos, mas os meus são os meus, tenho que gostar mais dos meus bonecos, entende?”, e sorri. Nós entendemos, Pedro. Vida longa a Zé Pereira, Vitalina, Dona Alzira, Negro D’água, Galo e Padre Noberto. Muitos carnavais e céus azuis pela frente.

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