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Casa da Cultura celebra 50 anos como símbolo de memória e difusão cultural em Pernambuco

Celebração ocorre nesta terça-feira (14) com feira e apresentação de dança abertos ao público; prédio funcionou como cadeia por quase 120 anos, até ser restaurado e transformado em centro cultural

Foto: Eduardo Cunha/ Secult-PE/ Fundarpe

Mais de 100 lojas de arte e artesanato, teatro, anfiteatro, dois painéis de Cicero Dias, feira agroecológica toda sexta-feira e uma extensa programação de apresentações culturais e oficinas ao longo do ano: a Casa da Cultura completa nesta terça (14/4) 50 anos. Gerida pelo Governo do Estado, por meio da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), a Casa funciona como centro de difusão para a cultura pernambucana, dada sua vocação turística, mas também agrega atividades culturais para os recifenses, operando como lugar de convivência cravado no Centro da capital pernambucana.

A programação comemorativa se estende ao longo do mês de abril, reunindo apresentações artísticas, exposições, visitas mediadas e ações formativas. No dia 14, data do aniversário, haverá feirinha com produtos desenvolvidos por jovens da Fundação de Atendimento Socioeducativo de Pernambuco (Funase), das 9h às 16h, além da apresentação teatral “Vozes e Memórias nos 50 Anos da Casa da Cultura”, conduzida por Marcelo Maracá, das 16h às 17h, com participação de alunos da EREM Oliveira Lima. As ações são abertas ao público, com entrada gratuita.

Entre os destaques da programação, estão ainda visitas mediadas realizadas entre os dias 13 e 16 de abril, mediante agendamento; demonstração de artesanato com jovens da Funase (16/04, das 15h às 17h); vivência de dança com Neguinho do Frevo (18/04, das 11h às 12h), celebrando o ciclo junino; e a exibição de um mini documentário sobre os 50 anos da Casa, no dia 22 de abril, às 17h, com presença de representantes da Fundarpe. No mesmo dia, às 16h, haverá apresentação itinerante sobre a preservação do patrimônio cultural.

A programação inclui ainda exposições como a mostra do artista Isac Vieira (15 a 24/04) e a exposição de arte naïf de Leandro Loureiro, na Galeria Régis (cela 102, raio sul), de 15 a 30 de abril. Também integra a agenda a instalação “Mesa Posta: 50 anos de artesanato na Casa da Cultura”, em cartaz de 14 a 24 de abril, além de visitas guiadas e ações educativas com grupos e instituições, como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o projeto Jovens em Ação (SEPODE).

“A Casa da Cultura é um dos maiores símbolos da capacidade de ressignificação do nosso patrimônio. Um espaço que foi por muitos anos um presídio hoje é lugar de encontro, criação e valorização da cultura pernambucana. Ao completar 50 anos como centro cultural, reafirma seu papel como equipamento vivo, que conecta tradição e contemporaneidade, fortalece a economia criativa e amplia o acesso da população às diversas linguagens artísticas”, ressalta a vice-presidente da Fundarpe atualmente em exercício, Lidiane Pessoa. “Celebrar essa data é também reconhecer o trabalho contínuo de quem mantêm esse espaço pulsante no coração da capital e reforçar o compromisso da gestão da governadora Raquel Lyra com o fomento à nossa cultura.”

Próxima a outros importantes construções históricas, como o Museu do Trem e a Ponte 6 de Março (a Ponte Velha), a Casa da Cultura é focada no comércio de artesanato, mas hoje também conta com outras atrações que levam o público a frequentar o espaço. De um lado, a programação é composta das ações produzidas pela Fundarpe – que abrangem os ciclos carnavalesco, junino e natalino, em que a Casa recebe atrações de todo o Estado, além de cursos e oficinas em renda renascença, upcycling, danças populares, entre outros. De outro, o edifício sedia programação livre, que ocorre na Sala Jota Soares, no Palco Nelson Ferreira (um anfiteatro) e no Teatro Clenio Wanderley, com artistas e grupos que ocupam a pauta desses espaços a partir de solicitação à administração.

Foto: Silla Cadengue/Fundarpe-PE

Foto: Silla Cadengue/Fundarpe-PE

Painéis de Cícero Dias na Casa da Cultura

“Tanto os ciclos e formações oferecidos aqui via Fundarpe quanto os eventos agendados por agentes externos colaboram com a formação de plateia para diversas linguagens e para a visibilidade do equipamento, firmando a casa como espaço de cultura e lazer para todo o Estado, já que grupos de diversas partes de Pernambuco ocupam lugar aqui”, explica a gestora da Casa da Cultura, Jaqueline Araújo. Além disso, ela cita a visita regular de grupos escolares de instituições públicas e privadas – ela contabilizou visitas de mais de 500 estudantes em 2026. A Casa também conta com feira agroecológica toda sexta-feira (de 7h ao meio-dia), na área externa.

Comercialmente, o trânsito de turistas fortalece o espaço, em especial durante a temporada de cruzeiros, que ocorre de outubro a abril e garante um alto volume de visitantes à Casa. “Tenho essa loja aqui primeiramente por valor sentimental, porque era do meu pai e agora eu e minha família cuidamos, mas isso só é possível porque também dá retorno financeiro, claro”, explica a lojista Magali Costa, que conduz a Galeria Régis (na cela 102, raio sul do prédio) com o marido, Alexandre. Aberta desde 1976, o espaço inicialmente era conduzido pelo pai dela, o artista plástico Régis Loureiro, e vende telas e suvenires. Foi na Casa da Cultura que ela e o marido se conheceram. “Eu e uns amigos produzíamos algumas apresentações musicais aqui, e um dia eu a vi na frente da loja”, lembra Alexandre.

Também são realizadas parcerias entre a administração e os lojistas para expor produtos fora das lojas em datas comemorativas, como Páscoa e Dia das Mães, a fim de dinamizar a circulação dos itens no espaço da Casa nessas ocasiões.

Além de lojas, restaurante, lanchonete e dos espaços já mencionados (Teatro Clenio Wanderley, Palco Nelson Ferreira e Sala Jota Soares), também ocupam a Casa as sedes de algumas associações, como a Associação Pernambucana de Anistiados Políticos (APAP) e o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (SATED).

Foto: Juana Carvalho/ Secult-PE/ Fundarpe

HISTÓRIA – Uma das construções mais significativas feitas na capital pernambucana no século 19, a Casa da Cultura Luiz Gonzaga – antes Casa de Detenção do Recife – foi projetada pelo arquiteto José Mamede Alves Ferreira, que também assinou os projetos do Ginásio Pernambucano e do Hospital Pedro II. A Casa foi oficialmente inaugurada em abril de 1855, ainda incompleta; as obras foram concluídas em 1867. Sua construção em forma de cruz obedece ao modelo em voga na Europa, em no estilo pan-óptico, que permitia vigilância de todos os corredores de celas a partir de uma guarnição.

Entre os encarcerados célebres que passaram por lá estão João Dantas (assassino de João Pessoa, governador da Paraíba), Miguel Arraes, Gregório Bezerra, Francisco Julião, o cangaceiro Antônio Silvino e o escritor Graciliano Ramos.

A mudança de penitenciária para centro cultural foi idealizada e planejada pelo artista plástico Francisco Brennand, na época em que era chefe da Casa Civil do Governo do Estado, na primeira gestão de Miguel Arraes (1963-1964). Em entrevista concedida em 2019 à pesquisadora Josevane Francisco da Silva, para o artigo “Da Casa de Detenção à Casa da Cultura de Pernambuco (1963-1982)”, Brennand relatou que chamou os arquitetos Lina Bo Bardi e Jorge Martins para fazer o projeto de restauro do edifício. “Nós chegamos a fazer escultura, leituras, comparações etc., mas tudo isso ficou em cima de minha mesa”, lembrou o artista. A iniciativa foi interrompida pelo golpe de 1964.

A ideia não se perdeu; foi retomada anos depois com outros profissionais. A Casa de Detenção foi fechada em março de 1973, na gestão do governador Eraldo Gueiros, após quase 120 anos ininterruptos de ocupação carcerária. Foi reaberta como Casa da Cultura em 14 de abril de 1976, no mandato do governador Moura Cavalcanti, a partir de projeto de restauração dos arquitetos José Luiz da Mota Menezes e Fernando de Barros Borba. O restauro foi concluído no ano seguinte.

As mais de 110 celas do edifício, divididas em 3 blocos chamados de raios, ocupam o térreo e mais dois andares. Hoje, elas abrigam lojas, lanchonetes, restaurantes, sedes de associações e a administração do prédio, além do Teatro Clênio Wanderley, da Sala Jota Soares e da reserva técnica do Museu da Imagem e do Som (Mispe). Na área externa, há o anfiteatro.

Por sua importância histórica, a Casa da Cultura foi tombada como Patrimônio do Estado em 1980. Também abriga o painel Frei Caneca, de Cicero Dias, feito em 1982 e dividido em duas partes, que representa a Revolução de 1817 e a Confederação do Equador (1824).

OCUPAR A PAUTA – Além de receberem iniciativas da Fundarpe, a Sala Jota Soares (12,7m x 4,3m) o Teatro Clenio Wanderley (70 lugares) e o Palco Nelson Ferreira (anfiteatro com aproximadamente 100 lugares) estão com agenda aberta a interessados que desejem realizar eventos no 1º semestre. Lá, são realizados eventos como palestras, oficinas e espetáculos. Para realizar o agendamento, basta fazer a solicitação ao e-mail casadacultura.pe@fundarpe.pe.gov.br. Será feito um chamamento público para ocupação do espaço no 2º semestre, via redes sociais e outros meios.

Para espetáculos que concorrerão a editais (Funcultura, Lei Paulo Gustavo e outros), a administração da Casa cede carta de anuência de ocupação do espaço, mediante análise do projeto.

VISITAS ESCOLARES – Escolas e demais instituições interessadas em conhecer o espaço de maneira guiada devem entrar em contato pelo e-mail casadacultura.pe@fundarpe.pe.gov.br ou pelo telefone 3184-3152. As instituições têm autorização para visitar o espaço sem agendamento, mas o guia é disponibilizado apenas aos grupos que entraram em contato previamente.

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