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Festival de Inverno

Artistas garanhuenses ocupam Casa Galeria Galpão

Fotografia, instalação, performance e ilustração: Garanhuns mostra um pouco de tudo na Galeria

Por: Ana Beatriz Caldas

No Palco Mestre Dominguinhos, a primeira atração de cada noite é de Garanhuns. Na Praça da Palavra, os escritores da região se destacam, conversam e lançam suas obras. O que, talvez, pouca gente saiba, é que algumas das exposições instaladas na Casa Galeria Galpão, polo de artes visuais, fotografia, design e moda do FIG, também são de artistas da terra. Nascida em Venturosa, distante cerca de 70km de Garanhuns, Joyce Torquato estudou Letras e trabalha, atualmente, na Cidade das Flores, como professora de língua portuguesa e artista plástica. Em uma de suas exposições do ano passado, o poeta garanhuense Helder Herik se encantou pela sutileza da arte de Joyce, tanto quanto pelas suas referências, e fez um convite para que esta ilustrasse um de seus livros de aforismos, que, à época, se dominava “A loucura como estratégia de sobrevivência”.

A partir do momento em que aceitou a proposta, começou a produzir e reunir uma série de suas ilustrações que casassem com a obra. “Eu gosto de construir uma narrativa com os desenhos que faço, então juntei alguns dos aforismos em uma história que tem como tema o ‘passarilhar’, o não morrer”, explicou Torquato. Através de grandes personagens em contexto de guerra, como Iara Berger e Olga Benário, muito caras à artista, e com a ideia do livro em hiato, graças aos parcos recursos editoriais, se formou a exposição “Eu, passarilho”, que reúne alguns dos aforismos de Helder, ilustrações inéditas de Joyce e uma bela história para quem a visita.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

A artista plástica e ilustradora Joyce Torquato

“Pensei em pessoas em situação de guerra que arrumaram uma forma de vivenciar aquilo de modo mais brando. Como exemplo, lembrei das cartas que Olga escrevia para Carlos Prestes em que ela dizia que ‘preparar-se para a morte não é dizer que me rendo’. Quando Iara foi morta, também, seu companheiro Lamarca inscreveu um diário inteiro para ela. Ou sejam, essas pessoas não morrem, apenas passarilham; continuam vivas através do que falaram. A palavra é um telefone sem fio”, explicou Joyce. E tem funcionado. Às vezes, fora do cômodo em que sua arte está exposta, Joyce apenas observa a interação dos visitantes. “A exposição pode ser lida de dois jeitos, há dois começos, e é muito interessante ver suas feições ao formarem uma narrativa”, brincou.

Saia do Automatismo para a Individualidade Autêntica (SAIA)

Outra grande contribuição local para a Casa Galeria foi a instalação do projeto “Saia”, arquitetado pelos garanhuenses Renato Moraes, Gláucia Terra e Elvis Bittencourt. Mais do que um espaço artístico, onde o fotógrafo Renato, a escritora Gláucia e o produtor Elvis puderam dar vazão a um dejeso estético, é um local para empoderamento dentro do nosso polo. Na instalação, vemos uma grande saia azul-escura no meio, como se fosse uma árvore cheia de raízes, e pequenos “galhos”, ao redor, que seguram fotografias de pessoas utilizando a mesma saia, em contextos e cenários diferentes. Em uma das fotos impressas, vê-se a imagem de Amanda, que tem deficiências auditiva e de fala, com a supersaia, em meio a um supermercado. É que Amanda, por sua condição, tinha alguns direitos básicos retirados pela família, como o de trabalhar.

Hoje, ela é gerente de um mercadinho. Saiu de sua bolha, do rótulo que lhe foi imposto pela sociedade. Em outra das imagens, vemos uma mulher, com a saia, mas os seios desnudos, em uma espécie de salão de beleza. Uma mulher que, após ter fotos íntimas divulgadas sem a sua permissão, resolveu fazer as pazes com o corpo e o espírito. Graças a Renato, transformaria a tristeza em arte.

“O Saia é sobre sair da zona de conforto. Identificar os padrões em que a sociedade nos coloca e sair deles. Quando a gente sai, a gente cresce, por isso é uma saia agigantada em locações comuns nas fotografias. Porque todos temos esse poder”, explicou Renato, que segue com o @projetosaia no Instagram, à espera de novas pessoas e histórias para, quem sabe, alçar novos voos. Afinal, estagnação e conformidade, aparentemente, não se conectam aos desejos do trio.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Os criadores do Projeto Saia, que seguirá coletando história após o festival

Feito à mão, feito para todos

Enquanto arquitetas, as jovens Bruna Matos e Marcella Vasconcelos se sentiam frustradas ao ouvir de alguns artesãos locais que sua arte não era reconhecida. Por isso, resolveram elaborar uma exposição que valorizasse o artesanato enquanto formador da identidade, e daí nasceu “Arte: fato e feito do interior”, também aberta à visitação na Casa Galeria Galpão. “Dificilmente os clientes solicitam, por exemplo, um projeto de interiores que dê preferência ao artesanato, no lugar das peças industrializadas e produzidas em série. Queríamos, de alguma forma, mostrar a beleza do que produzimos aqui”, contou Bruna.

A ideia do projeto nasceu também da inspiração em Janete Costa, arquiteta garanhuense que sempre defendeu a arte e a cultura local, promovendo o artesanato em seus projetos. “Ela enxergava o papel social que a arquitetura e o design possuem e utilizava seu trabalho como instrumento para fortalecer os artistas”, completou Bruna. Com caixotes, cabaças e outros produtos conhecidos dos artesãos, a exposição conta com o trabalho dos artesãos Mestre Fida, Serginho e Bete Godoy. “Eles já são bem conceituados dentro e fora do estado, mas sentimos a necessidade de tornar esse trabalho anda mais reconhecido. A reação do público tem sido muito positiva, especialmente nas redes sociais. É a nossa primeira exposição, mas já vimos várias fotos da nossa instalação por aí, e, para nós, isso é o máximo”, comemorou.

“Matéria do infinito”: mais que uma performance, uma lição

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Leo Silva se apresenta na Casa Galeria Galpão

Mais uma das intervenções realizadas durante o FIG na Galeria Galpão, “Matéria do infinito”, do artista Leo Silva, chamou grande público. Feita com auxílio de produção e sonografia do Coletivo Tear, que vem fomentando a cena cultural em Garanhuns, a performance de Leo emocionou, assustou, causou identificação. Com uma só veste, espécie de casulo, ele demonstrou, sem dizer palavra, as maiores dores do ser humano – simulou vômitos, pânico, parto. Sua “ressurreição”, após sair da veste única que o comprimia e pintar-se de várias cores, é um modo de retratar o ciclo da vida, não só humana, mas do universo. “Todos nós temos um acesso inconsciente a dores em comum. Eu quero falar, aqui, da vida que surge do nada e toma o rumo do infinito. Nós somos o todo, e estamos desarticulados em corpos, em matéria física. A vida é um processo de dores, de cura, de conhecimento. Trabalho em cima, simbolicamente, da metamorfose da borboleta. A lagarta, que deixa um rastro de destruição por onde passa, se transforma na borboleta, no belo, que vive tão pouco e se torna infinita. Esse é um processo de evolução espiritual”, declarou, emocionado, após sua primeira intervenção em um Festival de Inverno de Garanhuns. Se depender dos aplausos e da atenção do público da cidade natal, Leo já é borboleta.

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