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Emoção toma conta do Outras Palavras com a escritora Ezter Liu

Homenagens e conversas com estudantes sobre o livro 'Das tripas coração', premiado no 5º Prêmio Pernambuco de Literatura, deram o tom das edições realizadas no Clisertão, em Petrolina

Marcus Iglesias/Secult-PE

Marcus Iglesias/Secult-PE

Ezter Liu foi a primeira mulher a receber o grande prêmio da premiação promovida pela Secretaria estadual de Cultura e Fundarpe

Por Marcus Iglesias

Duas das mais emocionantes edições do Outras Palavras aconteceram esta semana durante a programação do Clisertão, em Petrolina. Na quarta (9) e quinta-feira (10), a grande vencedora do 5º Prêmio Pernambuco de Literatura, a escritora Ezter Liu, com seu primeiro livro de contos intitulado Das tripas coração, foi conversar com estudantes da rede pública sobre sua mais recente obra. Tudo certo para mais um bate-papo com uma autora pernambucana, mas o que não estava esperado foi o retorno intenso e curioso por parte dos jovens, principalmente das alunas, que fizeram várias homenagens à primeira mulher a receber o grande prêmio promovido pela Secretaria estadual de Cultura e Fundarpe.

Os encontros aconteceram na Escola Dom Antônio Campelo, na quarta-feira (9), e na quinta-feira (10), na EREM Professora Osa Santana de Carvalho – escola que mais aprova alunos no ENEM em Petrolina. Para Cleonice Lima, gestora da EREM, é hora de valorizar o potencial que existe dentro da rede pública de ensino de Pernambuco. “Dizemos sim à escola pública, que hoje para mim supera muitas escolas privadas por ai afora. É importante que eles, os estudantes, ocupem os vestibulares, mas acima de tudo é primordial que fiquem em primeiro lugar na vida como cidadãs e cidadãos. Por isso agradecemos bastante a vinda do Outras Palavras e desta escritora, a primeira mulher a ganhar o grande prêmio do Pernambuco de Literatura”, comemorou.

Marcus Iglesias/Secult-PE

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Nos dois dias, os debates foram mediados pela também escritora Socorro Lacerda

Natural de Carpina, atualmente Ezter é também comissária da Polícia Civil no município de Lagoa dos Carros, e acompanhou diversos casos de violência contra a mulher. Nos intervalos entre suas obrigações, sempre arruma o precioso tempo para se dedicar à arte de escrever e emocionar com as palavras, o que, segundo ela, é como se fosse “um processo terapêutico, de arrancar fora algo que lhe incomoda por dentro”. Clique aqui e confira um episódio do Pasárgada.doc feito com a autora

Por onde passou, sem exceção, a escritora premiada foi pega de surpresa com as dezenas de homenagens que via pela frente, fossem através de cartazes, desenhos, paródias com suas poesias ou até uma leitura explicativa feita pelo aluno Leo Santana, do 3º ano da EREM Prof.ª Osa, a partir do conto ‘Deus’. O que ela talvez também não esperasse foi o estudo profundo feito pelas alunas e alunos a partir da sua obra, até então algo inédito em outras edições do Outras Palavras. “A gente normalmente pede aos professores das escolas que vamos visitar que façam um trabalho prévio com os estudantes para que, na hora da conversa com o escritor ou escritora, eles já estejam um pouco por dentro do que será conversado. Mas nunca vimos algo parecido como o que aconteceu em Petrolina, foi realmente emocionante ver os jovens bem envolvidos com a discussão”, revelou Lucila Gomes, integrante do projeto presente na atividade.

Marcus Iglesias/Secult-PE

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Estudantes homenagearam a autora com cartazes, desenhos, paródias com suas poesias e até uma leitura explicativa feita pelo aluno Leo Santana, do 3º ano da EREM Prof.ª Osa, a partir do conto ‘Deus’

Nos dois dias, o debate com Ezter Liu foi mediado pela também escritora Socorro Lacerda, natural de Petrolina e representante da Secult-PE no sertão do Estado. “A resistência que o nosso país precisa para avançar está aqui na escola. E essas atividades são consideradas, acima de tudo, de resistência através da arte. Será uma grande oportunidade para os jovens conhecerem de perto esta mulher, e ver que ser artista não é fácil. E na literatura, e ter tido o reconhecimento que ela teve, é algo difícil”, destacou Socorro Lacerda.

Uma das perguntas que a mediadora fez questão de fazer a Ezter Liu foi de onde surgiu a ideia do conto que dá título ao livro vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura. “Ele é um texto muito forte, chorei lendo do começo ao fim. Tive que me recompor várias vezes. O que você quis dizer com ele e de onde veio esse título?”, questionou Socorro Lacerda.

Marcus Iglesias/Secult-PE

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Por onde passou, sem exceção, Ezter Liu foi pega de surpresa com as dezenas de homenagens ou pela interação curiosa dos jovens que participaram das atividades

“Primeiro eu queria dizer que é muito lindo estar sentada onde eu estou e vendo a vista que estou tendo, porque, assim como vocês, fui aluna de escola pública. Mas, na minha época, eu não tinha essa oportunidade de trocar ideias com uma escritora ou escritor, e estou muito feliz em poder fazer isso aqui. Sobre o conto Das tripas coração, que dá título ao livro, eu o escrevi chorando. Doeu demais pra sair. É um sacrifício materializar uma historia que lhe machuca, mas enquanto a gente não bota pra fora, não nos satisfaz. Quem melhor do que nós mulheres pra saber sobre o que é fazer ‘das tripas coração’? Algumas realidades são tão duras de construir, que realmente doem quando saem para o papel”, explicou a escritora.

Durante as conversas era notável que a maioria das perguntas (e foram muitas) era feitas por alunas. Temas como sexualidade, maternidade, violência doméstica e outros assuntos foram discutidos a partir da leitura dos contos de Ezter Liu. “Eu fico realmente emocionada porque esses três dias que estive em Petrolina para participar do Outras Palavras foram, na verdade, um abraço que durou três dias. Vocês falam que minha obra é incrível, mas incríveis são vocês, que conseguiram entender tudo o que eu quis dizer com uma inteligência de dar inveja”, comentou a autora num dos encontros.

Marcus Iglesias/Secult-PE

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Muitas alunas leram o livro de Ezter Liu e foram participar do Outras Palavras cheias de dúvidas e curiosidades sobre o livro ‘Das tripas coração’

Uma das perguntas que se repetiu nos dois dias foi “de onde veio o título Vulvas brancas e o que você quis dizer com esse conto?”, feito, não por acaso, por duas jovens. ”Esse conto passeia pelas várias idades da mulher, e é uma crítica à cobrança social da nossa idade. A gente é sempre cobrada a permanecer jovem, e é essa a metáfora que eu busquei para explicar isso. E a referência que faço ao barquinho de papel é porque ele visto de cima parece muito com a vulva”, contou Ezter.

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Samba de Véio, com mais de cem anos de história, colocou os estudantes pra conhecerem de perto a cultura popular pernambucana

Cultura popular – Quem também participou das duas edições do Outras Palavras e colocou literalmente todo mundo pra dançar foi o Samba de Véio, grupo com mais de cem anos de história e um dos patrimônios de Petrolina. A sede da brincadeira fica na Ilha do Massangano, onde acontecem as tradicionais sambadas regadas a muita cachaça, samba e peixe frito. A próxima, inclusive, está marcada para o dia 13 de junho deste ano.

Não era de surpreender que muitos jovens não conhecessem a brincadeira da sua cidade natal. Mas algumas memórias são genéticas, e bastou o pandeiro e a batucada começarem e emitir os grooves para os primeiros passos tímidos começarem a surgir. Teve até professores que deram show na roda, para delírio histérico da garotada, que se contagiava e entrava também na brincadeira. Para muitos, ali era o primeiro contato com uma manifestação cultural da sua própria terra. Cultura e arte, juntas, transformando vidas.

Marcus Iglesias/Secult-PE

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Brincadeira é conhecida por ter tido como padrinho o escritor Ariano Suassuna

Dona Raimunda, organizadora da brincadeira, revelou aos jovens que o Samba de Véio teve como padrinho, por muitos anos, o escritor Ariano Suassuna, que se apaixonou pela manifestação ao vê-la ao vivo. “A gente foi uma vez se apresentar na Festa da Lavadeira e um dos filhos de Ariano nos assistiu e ficou impressionado com a festa. Eu lembro que ele disse que ia nos levar para conhecer seu pai, e assim o fizemos. Na frente de Ariano nós nos apresentamos, e depois que ele viu aquilo, emocionado, disse assim: ‘a partir de hoje, eu vou ajudar vocês a tomar conta deste brinquedo, porque ele muito importante para a cultura pernambucana’”, disse Dona Raimunda, imitando aa voz de Ariano, em tom saudoso, lembrando-se da conversa que tiveram lá pelos idos do ano 2000. Hoje o grupo conta com três discos lançados, um deles estampando o rosto do padrinho na capa.

Outras Palavras – A programação segue ao longo de maio com outras nove edições. Em quase três anos, o projeto da Secult-PE e Fundarpe mudou a realidade do ambiente escolar para melhor e revolucionou a vida de muita gente: Foram alcançadas mais de 500 escolas de várias regiões do estado (RMR, Sertão do Moxotó, Sertão do São Francisco, Agreste Meridional, Agreste Central, Agreste Setentrional, Mata Norte e Mata Sul), atingindo mais de 12 mil alunos e distribuindo nas instituições de ensino mais de 5.100 livros – boa parte deles publicações premiadas no Prêmio Pernambuco de Literatura ou que foram produzidas com incentivo do Funcultura.

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