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Estudantes do Recife vivem manhã de trocas culturais do projeto Outras Palavras

Projeto 'Outras Palavras' segue espalhando ações integradas de educação e cultura no cotidiano escolar

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Por Roberto Moraes Filho

A terceira edição de 2017 do projeto Outras Palavras, desenvolvido pela Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe, proporcionou nesta terça-feira (4), na Escola de Referência do Ensino Médio Diário de Pernambuco, localizada no bairro da Cidade Universitária, no Recife, uma manhã repleta de saberes e movimentação cultural. Na programação, que envolveu cerca de 200 estudantes, além de professores das escolas participantes, foram realizados bate-papo literário com o escritor Luiz Coutinho Dias Filho e aula de cultura popular com o Maracatu Leão Coroado, Patrimônio Vivo de Pernambuco.  

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Antonieta Trindade abrindo a programação do projeto

Dando início ao ciclo de atividades, a vice-presidente da Fundarpe e idealizadora do projeto, Antonieta Trindade, falou um pouco sobre a iniciativa, que também possibilita a doação de livros vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura, além do livro ‘Patrimônios Vivos de Pernambuco’ (2014), de autoria da pesquisadora Maria Alice Amorim, para as bibliotecas de cada instituição de ensino. “O projeto Outras Palavras, que tem como objetivo integrar a cultura e a educação, possui duas marcas principais: a da resistência e a da oportunidade. A marca da resistência porque nós todos que somos das classes populares sabemos que para chegar à universidade, mesmo com cotas, é preciso ampliarmos o nosso conhecimento. E a gente não pode ter uma escola melhor sabendo menos. Precisamos ter uma escola que nos garanta o segundo objetivo do ‘Outras Palavras’, que é a oportunidade”, frisou Antonieta.

“Possibilitamos que os estudantes conheçam escritores premiados do nosso Estado e também Patrimônios Vivos, assim como mestres e mestras da cultura popular. Então, é por isso que nós estamos indo adiante com esse projeto, para resistir e também possibilitar oportunidades para que os estudantes reflitam sobre o que eles pretendem se tornar no futuro, através de conhecimentos capazes de acrescentar muito na vida de cada um”, concluiu a idealizadora do projeto.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Entrega do kit ‘Outras Palavras’ a professora Carina Araujo e ao diretor Carlos Alberto, do EREM Diário de Pernambuco.

Após a entrega dos kits do projeto para representantes da EREM Diário de Pernambuco, Escola Professor Fontainha de Abreu, Escola Pintor Lauro Villares e Escola Leal Barros, os estudantes tiveram um bate-papo com o escritor Luiz Coutinho Dias Filho, mediado pelo jornalista e cineasta Marcos Enrique Lopes. Nascido no Recife e formado em medicina, atuando como neurocirurgião e neurologista, Luiz Coutinho também integra a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Em 2014, publicou o seu primeiro livro, ‘A Reconquista do Paraíso e Outros Poemas’. Já sua segunda e mais recente obra, ‘Nós, os bichos’, publicada em 2015, foi vencedora do 3º Prêmio Pernambuco de Literatura.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Em sua participação nesta edição do projeto, Luiz Coutinho conversou sobre o ofício de escritor em meio à vida profissional revezada com a carreira de médico. “Quando eu tinha a idade de vocês eu decidi que iria ser médico, mas já naquela época gostava muito de escrever. E décadas depois, eu pude seguir os dois caminhos. Quanto a ser escritor, o que é necessário é amar escrever. No momento em que gostamos, vamos colocando as ideias no papel, esperando que um dia alguém vá gostar do que você fez. Eu comecei a escrever compondo poesias e nunca tive pretensão de ser escritor profissional. Escrevia eventualmente, para conquistar o coração das mulheres e após um desentendimento com minha esposa, para me reconciliar com ela, eu fiz uma poesia e publiquei em um jornalzinho comunitário de Aldeia. A partir daí, o pessoal e meus amigos foram gostando e me incentivaram a reunir os poemas que eu já tinha feito em uma única publicação, constituindo um livro. Foi assim que surgiu o meu primeiro livro ‘A Reconquista do Paraíso e Outros Poemas’. Com ele, eu passei a integrar a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores”, resumiu Coutinho.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Luiz Coutinho Dias Filho e Marcos Enrique Lopes, durante a realização do bate-papo literário.

Sobre o processo para compor o seu segundo livro de contos ‘Nós, os bichos’, Luiz Coutinho definiu: “Eu escolhi esse título em virtude dos contos terem a ver com animais e escolhi a temática porque é muito comum nós querermos identificar características de humanos nos animais. Na abertura do livro, escrevi que estamos no auge de uma escada que tem muitos degraus ocupados pelos seres que nos acompanharam na arca de Noé. Para chegar aí, passamos por todos esses degraus e, de certo, trazemos resquícios do que há neles. Nas fábulas, os bichos exibem traços humanos, as estórias deste livro são o inverso das fábulas”.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Finalizando a explanação sobre o processo de criação literária do escritor, o projeto abriu espaço para que os estudantes pudessem fazer perguntas e observações sobre as obras evidenciadas. “Esta é a segunda vez que participo do projeto Outras Palavras e acho a iniciativa brilhante, por estabelecer uma ponte entre aquele que produz arte e os alunos, que são aqueles que ainda irão produzir. Só tenho elogios a tecer sobre o que vivenciei aqui hoje. Quanto à participação dos estudantes, estou saindo pela segunda vez impressionado com o que a juventude pode nos oferecer em troca quando a gente toma o caminho de entregar algo para eles”, comentou Luiz Coutinho.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Deputada federal Luciana Santos (PCdoB) , durante o  projeto.

A deputada federal Luciana Santos, que esteve presente nesta terceira edição do projeto, saudou os estudantes falando sobre a política de integração entre cultura e educação, praticada pelo projeto no âmbito estadual. “Quando a Fundarpe, junto com as escolas procuram fazer essa interação, é para que a gente possa ter a dimensão do quanto a cultura é fundamental para que tenhamos a capacidade de abstração. Porque o lúdico, o conhecimento e a nossa inteligência precisam dialogar com a nossa capacidade de abstração e de olhar o mundo de maneira mais abrangente. E às vezes, embora seja decisiva a aprendizagem formal, aquela que a gente vê aqui na lousa, é necessário também essa nossa capacidade de abstrair, de imaginar, de refleti. A cultura nos leva a isso, por meio dela a gente reflete nossa história, o nosso comportamento, os nossos valores”, destacou a deputada.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

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Mestre Afonso Aguiar, do Maracatu Leão Coroado

Em seguida, o projeto possibilitou aula de cultura popular com o mestre Afonso Gomes Aguiar, presidente do Maracatu Leão Coroado, Patrimônio Vivo de Pernambuco, que ao final também promoveu apresentação especial da agremiação para os estudantes. “Em 2017, o Leão Coroado completa os seus 154 anos de resistência. Não é coisa fácil manter uma tradição que foi iniciada antes da abolição da escravatura. Somos oriundos de uma religião, que é o candomblé, e temos à nossa frente a representação de nossa ancestralidade, que é a calunga. O Maracatu Leão Coroado é composto ainda por uma corte e segue se apresentando como uma procissão, a dança do candomblé é interpretada especialmente pelas baianas e o batuque nosso tem como característica principal ser um batuque lento”, explicou o mestre Afonso, que posteriormente explanou sobre a manifestação, também atuante como ponto de cultura no bairro de Águas Compridas, em Olinda.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Apresentação do Maracatu Leão Coroado

“A iniciativa do projeto Outras Palavras é de grande importância, especialmente por levar para estudantes pernambucanos a sabedoria popular sobre nossas manifestações culturais, que em muitos casos é desconhecida nas escolas. Por meio de iniciativas como esta, em que vamos ficando conhecidos entre os estudantes, podemos resistir com nossa cultura”, destacou o mestre, ao final da apresentação.

Para Matheus Lima, estudante da EREM Diário de Pernambuco, o projeto possibilita também uma melhor aproximação com aptidões que ainda não são praticadas no ambiente escolar. “Por ser de escola pública, nós não temos tanta oportunidade de ter aulas diferenciadas como esta. Através do ‘Outras Palavras’, podemos despertar em nós um olhar diferenciado sobre a escrita, que muitas vezes não praticamos ou deixamos de investir, por ainda não ter uma aproximação mais intensa com escritores. Acho que quando a gente ouve relatos de escritores e mestres da cultura popular, fica muito mais natural querer conquistar e buscar experiências nos segmentos”, avaliou o estudante.

Foto: Jan Ribeiro/Secult-Fundarpe

Já para a estudante Ana Flávia de Lima Venâncio, do 3º ano da Escola Leal de Barros, o projeto permitiu ampliar conhecimentos sobre como publicar livros e colaborar para a manutenção de manifestações. “Como eu já estudei em colégio particular até a 8ª série, e agora no Ensino Médio passei a fazer parte da rede pública de ensino, eu nunca tinha visto um projeto como este, que valoriza a cultura de Pernambuco e possibilita conversas valiosas com um escritor premiado do nosso Estado. Isso só incentiva a leitura e busca levar para o estudante o que ele muitas vezes sente dificuldade em encontrar no universo da escola”, comentou Ana Flávia, que escreve poemas desde o ano passado e já pensa em publicá-los mais à frente.

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