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Outras Palavras discute empoderamento feminino com jovens mulheres em conflito com a lei

A poetisa Cida Pedrosa e o grupo de hip hop Aliados CP participaram da atividade no CASE Santa Luzia

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Secretária da Mulher do Recife, Cida Pedrosa é escritora, poetisa e advogada, e há anos encampa a luta pelo empoderamento feminino

Por Marcus Iglesias

Quando foi idealizado em 2015, o Outras Palavras previa inicialmente visitar escolas do Ensino Médio da rede pública de Pernambuco. O projeto da Secult-PE e da Fundarpe foi ganhando corpo e consolidando-se como política de integração entre cultura e educação, passando a contemplar também espaços não formais de aprendizagem, como as unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase), que abriga adolescentes em conflito com a lei.

Na última segunda-feira (18), o  Outras Palavras levou ao Centro de Atendimento Socioeducativo (CASE) Santa Luzia, a única feminina do estado localizada no Recife, a escritora e poetisa Cida Pedrosa e o grupo de hip hop Aliados CP para trocarem ideias com as jovens num exercício de liberdade por meio da transmissão de conhecimento. O lugar abriga cerca de 40 jovens de vários municípios, que recebem aulas normais numa parceria com a Escola Carlos Gomes Gonçalves de Correira, além do curso de artesanato ministrado por Santinha Eulice, uma das mulheres que trabalha na unidade e pela qual as jovens têm profundo respeito.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Antes da conversa com a escritora, as jovens assistiram ao filme K’HADY – Sangrento corte íntimo’, de Hanna Godoy e Marcia Mansur

Cida Pedrosa se apresentou também como advogada, um dos seus ofícios, “e falo isso porque advoguei durante um tempo com adolescentes em conflito com a lei, então sei um pouco da realidade de vocês. A ideia aqui hoje é que a gente possa conversar sobre literatura, mas também sobre o assunto que vocês quiserem trazer”, disse a poetisa, que em seguida exibiu o filme KHADY – Sangrento corte íntimo, de Hanna Godoy e Marcia Mansur.

“Chocante, essa obra trata de um tema complexo e desumano que acontece em alguns países da África, que é o corte do clitóris da mulher. Essa prática é proibida por lei, mas algumas pessoas ainda fazem esse tipo de coisa por questões de fé. É um filme que basicamente trata sobre a violência contra a mulher e eu queria que vocês o assistissem para depois a gente conversar sobre o assunto”, sugeriu a escritora.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Cida Pedrosa levou alguns exemplares de livros de sua autoria, como o de contos ‘As Filhas de Lilith’

Antes da exibição, o mediador da conversa, o jornalista e cineasta Marcos Henrique Lopes, destacou o esforço das meninas do CASE Santa Luzia em montar o cineclube dentro da unidade. “A gente que trabalha com cinema sabe o quanto complicado e difícil é organizar toda essa estrutura de som e telão, e eu queria registrar que tudo isso aqui foi montado pelas próprias jovens”, parabenizou Marcos Henrique.

Depois do filme, as adolescentes fizeram várias perguntas a Cida Pedrosa. “Por que ele fez isso com ela? Por que cortaram o clitóris? Ele a abusou sexualmente?”, foram algumas das questões ouvidas. “Eu tenho um livro chamado As Filhas de Lilith, que tem 26 contos que tratam de vários aspectos sobre a realidade feminina. Um deles fala dessa prática, que é feita em meninas de 11 a 14 anos. Kadhi é o nome de uma famosa modelo africana que denuncia esse abuso”, explicou Cida Pedrosa.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Uma parte de vocês não está livre. Mas eu digo a vocês que a gente só consegue construir nossa liberdade lá fora se construirmos antes aqui dentro, na nossa cabeça, para que assim possamos ter autonomia política e econômica e podermos construir nossa própria história”, disse Cida Pedrosa

“E respondendo a primeira pergunta, é por uma questão de sexualidade. Querem negar nosso direito de ter prazer. E o corte do clitóris pode ser real, mas também simbólico. Quem nunca ouviu da mãe ‘fecha as pernas, menina!’, enquanto os meninos nunca são cobrados dessa postura?”, provocou a poetisa.

Secretária da Mulher do Recife, Cida Pedrosa há anos encampa a luta pelo empoderamento feminino. E para ela, a liberdade é um conceito mais amplo, além do espacial. “Uma parte de vocês não está livre. Mas eu digo a vocês que a gente só consegue construir nossa liberdade lá fora se construirmos antes aqui dentro, na nossa cabeça, para que assim possamos ter autonomia política e econômica e podermos construir nossa própria história”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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As jovens foram convidadas a ler e recitar no microfone

“A cada 11 minutos uma mulher é estuprada e a cada três horas uma mulher apanha em casa do seu companheiro. Eu pergunto a vocês: Essas mulheres são livres?”, questionou Cida, para receber de volta um uníssono “não” das jovens. “Minha dica é que vocês construam a liberdade interna. Houve um tempo em que nós mulheres éramos proibidas de ler, de ter conhecimento. E isso não faz mais de 200 anos, na história da humanidade significa pouco tempo. O estudo aqui dentro que vocês fazem é uma exemplo de exercício da liberdade”, concluiu Cida, que leu depois uma de suas poesias presentes no livro Cântaro  chamada Chama.

‘Não te direi o simples convite / Pois o meu corpo é dúvida / Cavalga em mim as incertezas / É dessa matéria a minh’alma / Há muitos anos curvas e círculos me habitam / Não te direi poesias de amor / Nem cantarei canções desesperadas / Mas se quiseres trago no peito o cheiro das estações / Na língua a infâmia dos oprimidos / Enfim, eu tenho o colo em chamas / Para fazer morada”.

As meninas também foram convidadas a falar, e uma delas leu uma poesia de Cida Pedrosa, enquanto outra preferiu recitar uma frase preferida do livro O Pequeno Príncipe, para aplausos das companheiras. “Prometo deixar aqui na direção da unidade uma cópia do Pequeno Príncipe original e outra feita em cordel por um amigo meu”, prometeu Cida.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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“Eu quero ver vocês na parceria comigo e com a mão pra cima na batida”, pediu Mano Gão, um dos integrantes do grupo, sendo correspondido por todas as meninas

Na sequência, o grupo Aliados CP, nascido em Casa Amarela, Zona Norte do Recife, encerrou a programação na batida do rap e convidando as meninas a participarem da brincadeira. “Eu quero ver vocês na parceria comigo e com a mão pra cima na batida”, pediu Mano Gão, um dos integrantes do grupo, sendo correspondido por todas, que gritavam para que uma delas dançasse no meio da roda que se abriu. De impressionar, ela puxou um break dance com maestria, e ainda convidou uma amiga que não só apenas dançou, como também pegou o microfone e mandou uma rima feita por ela de improviso.

Além de Mano Gão, o Aliados CP é formado por Fumaça (MC), AF (MC) e DJ Paulo V. O grupo lançou seu primeiro trabalho independente no final de 2005, intitulado Enxergamos uma luz e em 2012, apresentou seu segundo álbum, Vivendo o presente sem esquecer o passado, que conta com participações de Zé Brown e Jorge Poeta. “Temos que ter orgulho de onde viemos. Se acomodar é vegetar. A arte foi importante nas nossas vidas, nos transformou em pessoas melhores”, revelou o MC AF.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

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Apresentação do Aliados CP teve a inesperada apresentação de break dance por parte de uma das adolescentes

“Eu queria também destacar a importância do empoderamento da mulher no hip hop. Mano Brown recentemente deu uma entrevista na qual diz que não faz mais música que de alguma forma diminua as mulheres. Acho que isso é pra ser celebrado, uma cultura que é tão importante nas periferias não pode ser tratada de forma pejorativa”, disse Humberto de Jesus, integrante da equipe do Outras Palavras.

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Outra jovem pegou o microfone e mandou uma rima de improviso sob a batida do beatbox do MC AF

Normando Jorge de Albuquerque, coordenador do Eixo Profissionalização da Funase, comemorou a realização do Outras Palavras no CASE Santa Luzia, uma parceria que ele busca desde que o projeto teve inicio. “A ideia do Eixo Profissionalização é ofertar cursos e o acesso à cultura, fazer com que vocês possam exercer a liberdade. Quando temos conhecimento estamos numa situação de liberdade enquanto cidadãs que pensam seu futuro”.

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