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Literatura

José Juva lança “vupa-em-vocalização” no Espaço Pasárgada

Lançamento do livro sonoro acontece nesta quinta-feira (30), às 19h, com uma leitura-performance ao vivo dos poemas, que contará com as participações dos músicos Leo Vila Nova e Firmino Ordinário

Fernando Figuêroa/Divulgação

Fernando Figueirôa/Divulgação

Juva celebrará os dois anos da publicação do seu primeiro livro de poemas vupa

Bruno Souza

Depois de dois anos do lançamento de seu primeiro “livrinho azul” de poemas, vupa, o poeta e jornalista olindense José Juva lança, nesta quinta-feira (30), às 19h, no Espaço Pasárgada, a versão sonora da publicação. Batizada, agora, de vupa-em-vocalização, a sonorização do livro contou com participação do músico Rama Om, tocando didgeridoo, e edição/mixagem de Tiago West. O livro original foi editado de forma independente, em 2013, e reúne textos produzidos entre 2007 e 2010. “Fiz a vocalização dos poemas de vupa, com a ajuda de dois amigos, e, para celebrar e espalhar a voz, é que acontece, hoje, a festa Poesia pra tocar no corpo: lançamento de vupa-em-vocalização, no Pasárgada. Convidei os músicos Leo Vila Nova, na percussão, e Firmino Ordinário, na guitarra e nos efeitos, para me acompanhar na empreitada dessa noite”, disse Juva sobre o evento. Na ocasião, estarão à venda os 30 últimos livros físicos de vupa, por R$ 15 reais, cada um. A edição sonora já está disponível na internet, no Youtube e Soundcloud, gratuitamente.

Confira a entrevista que o autor concedeu ao Cultura.PE sobre o lançamento do livro sonoro e sua trajetória no mundo das letras.

1- Para começar, gostaríamos de saber o seguinte: como se deu sua paixão pelo tear da escrita? Com que idade você escreveu suas primeiras poesias?
Difícil dizer como as coisas acontecem, como permanecem. O prazer da escrita surgiu junto com o ritmo, com a ideia de escrita e música. Na época, por volta de 1995, tinha sempre um violão entre os amigos. Só mais tarde, depois de muita navegação, caiu a ficha de que o próprio poema já é música, é imagem, pensamento, sopro, sangue, um bicho vivo e uma morte ritual, um sair de si e encontrar as outras e os outros. Escritura, voz e performances são os lances que tornam a poesia uma magia ancestral e contemporânea. Eu tinha uns 12, 13 anos quando comecei a rabiscar cadernos com os chiados da minha alma e registrar espantos, colher as seivas da existência. Mas só comecei a me identificar com a ideia de fazer poemas mais tarde, lá pra uns 15, 16 anos, depois de encontrar na biblioteca da escola livros de Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Cassiano Ricardo e Vinicius de Moraes. Ali comecei a perceber que a música que eu fazia estava nos poemas. Hoje, retomo as aproximações entre escrita e música com os projetos PIVa – Poesia Incendiária Valvulada e naturalprensado.

2- Quando surgiu a ideia de transformar o livro em uma versão sonora? Você poderia comentar um pouco sobre o processo de transposição do papel para vocalização? Os poemas sofreram alguma modificação nessa mudança de suporte? Sim, uma curiosidade: o que é vupa?
A ideia surgiu este ano. Percebi que o livro faria dois anos, ainda restavam alguns exemplares comigo. E como não penso em reeditar, partirei para outras publicações, queria que ele chegasse em outras pessoas. A vocalização do vupa é neste sentido, de acompanhar outras frequências, visitar outros lugares e pessoas. O som vibra e se espalha noutra dinâmica, diferente do papel. A vocalização do livro foi bem intuitiva, sem muito planejamento. Falei com Rama Om, músico que toca no PIVa, para tocar didgeridoo e gravar comigo. A gente fez tudo numa tarde, em dois takes. Voz e didgeridoo. Depois, ouvi com Thiago West, também músico com quem toco no PIVa. Combinei uns efeitos, arranjos, e ele fez a edição e mixagem. A vocalização foi muito espontânea. Alguns poemas foram transformados com a repetição de certas palavras, por exemplo. Outra questão é que não há separação entre os poemas. É uma faixa só, pontuada por silêncios e respirações. Vupa é um termo do jogo de bola de gude. É a pessoa que perdeu todas as bolinhas das apostas, ficando só com a chamada bola de jogar. O vupa, praticamente falido, permanece no jogo. Arrisca perder a última bola, é um desapegado. Ama o risco.

3- Fala sobre o lançamento de vupa-em-vocalização. De que forma o público poderá ter acesso a esse material?
Será uma apresentação única feita para o evento, sem repetição. Como Rama Om não poderá participar, pois estará tocando em outro projeto, farei a leitura com a participação do percussionista Leo Vila Nova, também do PIVa e da banda de Juvenil Silva, e com o guitarrista da naturalprensado, Firmino Ordinário, que também tocará escaleta. Esta apresentação, no Espaço Pasárgada, vai ser como o tempo da vida, sem reprise. Quanto ao livro sonoro do vupa, disponibilizarei o material no Soundcloud e no Youtube. As pessoas interessadas podem procurar os links lá na página do livro lá no Facebook.

4- Você acredita que os meios eletrônicos são uma forma de divulgação que ameaça o livro impresso? Como, a partir desses meios, podemos pensar numa modernização literária?
É mais que divulgação. É outro suporte, outro arranjo. Mas não há ameaça. Um paralelo interessante pode ser feito com o LP. Tem seu sentido enquanto objeto estético próprio. E o que aconteceu com a aproximação entre poetas e novas tecnologias foi um retorno às práticas ancestrais, como a poesia sonora e outras práticas da tradição oral, por exemplo. Até podemos pensar em modernização literária, mas isso talvez signifique: derrubar árvores, construir estradas, sugar petróleo e produzir literatura. Estou com a poesia, que não é franquia da literatura, antes é uma manifestação vital de nossa jornada, canto mítico. O Brasil precisa de poetas perseguidos pela polícia, o resto é literatura, disse Roberto Piva. Interesso-me pelo moderno desde que signifique ser arcaico, agrada-me a ideia de contemporâneo que significa observar, mais do que as luzes do presente, suas sombras. A obra de arte antiga agrada por sua novidade, já disse Tristan Tzara.

4- Quais são os principais desafios de lançar/manter publicações literárias independentes?
Acima de todos os desafios: encontrar leitores. Tem o lado financeiro também. Nada se faz neste cassino sem grana. Mas o lance é: encontrar leitores. E leitores, aqui, significa mais do que olhos silenciosos concentrados na página. Leitura é magma, vida, diálogo. Pois, mais uma vez, acima de todos os desafios: encontrar leitores.

5- Comenta mais sobre seu envolvimento com o campo da música. Como essa passagem por diferentes linguagens e atividades se expressa no seu trabalho poético?
Não dá para precisar o modo como tudo isto se manifesta. O poeta é uma pessoa em estado de esponja, bem como em estado de vulcão. Uma frase ouvida na rua, um slogan, uma voz no sonho, uma comida, uma cerveja, outros poetas, dançar na roda punk, ler quadrinhos, tomar banho de cachoeira, em suma, todas as atividades são potências e energias captadas e transformadas nos poemas e pelos poemas. Mais que trabalho poético, uma existência poética, uma respiração. Isso envolve suor, músculo, sonho, viagens. Repetições e diferenças. Ainda quero misturar mais e mais coisas até chegar ao ponto de parar de pensar em mistura, conseguindo apreender que tudo é um e no uno vibra o múltiplo. É expressão, mas também impressão, explosão, pressão: nos dedos, nas cordas vocais, nos miolos, na coluna. E também iniciação, sensibilidade paleolítica. Primitivo significa complexo. Todas as linguagens estão na ponta da língua: voz, imagem, situação intermídia, poema dentro do corpo humano, o poeta como xamã.

6- Além de poeta e jornalista, você possui mestrado e, atualmente, está se doutorando em Teoria da Literatura. A teoria ajuda a atividade poética e vice-versa?
Ajuda na medida em que se vive uma inquietação, não como amparo, fórmula, tique. Teoria e prática não devem ser coisas separadas. A gente que comete o erro de distinguir demasiado bem, como disse Rilke nas Elegias de Duíno. Escrever poemas é exercício, assim como pintar uma parede de branco, com cal. Arte é técnica, habilidade. Mas também jornada visionária, imaginação criadora. A teoria ajuda a atividade poética ao ampliar repertórios, apontar figuras de criadores e criadoras, lançar alguma atenção sobre procedimentos, mas nada que sirva como baliza, como determinante. A atividade poética é um fazer, tudo impregna. Basta pensarmos no blues incrustado nos cantos de trabalho das colheitas de algodão. Outra vez, é preciso não ficar separando as coisas demais, analisando. Isso é uma coisa muito ocidental, cartesiana e estamos debaixo dessa influência, principalmente no âmbito acadêmico. Mas temos também ginga, dança, ritmo, em suma, temos poesia. Escrever poemas, escrever críticas de poemas, traduzir poemas: eis um programa de ajuda mútua. Mas, confesso, não vejo a hora de terminar a tese para ter mais de tempo de exercitar outras escritas e práticas, sem compromisso senão comigo e com a viagem, com a travessia.

7- Das obras publicadas até agora, qual delas mais lhe agrada? Você tem mais algum trabalho para esse ano?
Tenho três livros publicados: Deixe a visão chegar: a poética xamânica de Roberto Piva (2012), foi resultado de minha pesquisa de mestrado. Vupa (2013), meu primeiro livro de poemas, reúne coisas escritas entre 2007 e 2010, mais ou menos. Breve Breu – escritos sobre literatura & cinema (2014) agrupa textos diversos de crítica, produzidos no âmbito do mestrado, do doutorado mas também colunas para sites e blogs. Gosto dos três, mas destaco vupa. De fato, o trabalho com crítica é bem posterior ao processo de criação de poemas. Agora, ambos se apoiam. Tem também alguns outros trabalhos que ainda não conheceram a luz do sol e a praça pública. Hamor, livro de poemas curtinhos. Da boca pra fora, livro de poemas que dialogam mais explicitamente com cenários urbanos. Há outro livro também, cujo título vou preservar, pois concorre em um prêmio de literatura. E ainda mais uns quatro esqueletos de livros: Anicca, Distúrbio Caverna, Dizer tu e Rio de Mim. São trabalhos mais lentos, demandam atenção que não posso dar agora no contexto do doutorado. Provavelmente, no segundo semestre, farei uma edição artesanal para os poemas de Da boca para fora. Trinta e um exemplares para meus 31 anos. Os livros que mais me agradam são os que eu ainda não conheço, nem fiz.

Serviço
Poesia pra tocar no corpo: lançamento de vupa-em-vocalização, de José Juva
Quinta (30), às 19h
Espaço Pasárgada | Rua da União, 263, Boa Vista – Recife/PE
Entrada gratuita
A edição impressa do livro de poemas vupa será vendida no local por R$ 15,00

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