Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Literatura

Valorização dos quadrinhos no lançamento do selo Cepe HQ

A Cepe Editora passa a investir no segmento HQ, que tem ampla e diversa produção em Pernambuco

Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos tem roteiro de Clarice Hoffmann e Abel Alencar, com ilustrações de Maurício Castro, Greg, Paulo do Amparo e Clara Moreira

Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos tem roteiro de Clarice Hoffmann e Abel Alencar, com ilustrações de Maurício Castro, Greg, Paulo do Amparo e Clara Moreira

A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) lançou na última terça-feira (26) o selo Cepe HQ, tornando-se a primeira editora pernambucana especializada em quadrinhos. Durante o lançamento, aconteceu um bate-papo entre o editor da companhia, Diogo Guedes, e roteiristas e ilustradores de dois álbuns de estreia: O obscuro fichário dos artistas mundanos e Polinização. O encontro foi mediado pelo jornalista Paulo Floro, mestre em Comunicação e Culturas Midiáticas, especialista em quadrinhos. “É muito importante essa iniciativa da Cepe, ter os artistas lançando seus trabalhos em Pernambuco com mais estrutura. Até então, os artistas lançavam de forma independente ou por editoras do Rio de Janeiro e São Paulo”, enfatiza Floro.

De acordo com o diretor de produção e edição da Cepe, Ricardo Melo, Pernambuco está diante de um verdadeiro polo de produção de quadrinhos. “Este é um campo editorial grande, que tem se intensificado e o catálogo da Cepe, que é muito abrangente em termos de gênero, decidiu investir nesse segmento para atender a uma demanda ampla. Temos dado apoio a muitos projetos em HQ, agora resolvemos bancar e fazer com que essa produção ganhe espaço nacional”, salienta.

Ricardo Melo lembrou a publicação comemorativa da Revolução de 1817, feita pela Cepe em quadrinhos e nas inserções dentro da revista Continente, com quadrinhos reportagens abordando personagens do mundo musical. Já foram focados o compositor Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Jackson do Pandeiro e na última edição Pink Floyd, sobre The Wall.

O selo estreia com dois álbuns: Polinização, uma parceria de pai e filho, Cavani Rosas e Júlio Cavani, lançado no dia 30; e O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos, roteiro de Clarice Hoffmann e Abel Alencar, com ilustrações de Maurício Castro, Greg, Paulo do Amparo e Clara Moreira. Personagens inspirados em homens e mulheres fichados pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) deram vida a quatro narrativas. O lançamento será no próximo dia 21, às 19h, no Armazém do Campo.

ROTEIRO - Há 15 anos, durante um trabalho de pesquisa para a realização de outro projeto, a produtora cultural Clarice Hoffmann precisou consultar os arquivos do Dops, cujo acesso não era permitido. Ao contar à funcionária do Arquivo Público Jordão Emerenciano que a avó materna, Guta Gamer, judia de origem russa, havia sido fichada por ser artista de teatro, a arquivista mostrou a Clarice prontuários de várias pessoas como sua avó.

Após a Lei de Acesso à Informação ter sido sancionada, em 2012, Clarice voltou ao Departamento de Ordem Política e Social, que havia deixado o status de delegacia, e começou a sistematizar as informações sobre a cena de artes e entretenimento do Brasil dos anos 1930 e 1940.

De acordo com a produtora, 60% do arquivo era composto por mulheres, 40% de estrangeiros, sendo a maioria em trânsito, nomadismo que incomodava a polícia da Era Vargas. Foram cerca de três anos de trabalho, reunindo elementos para produzir O obscuro fichário, que inscreveu no Funcultura e no Itaú Cultural. Mesmo com o financiamento público e privado, o projeto só tinha fôlego para cerca de 64 páginas em preto e branco. Com o apoio da Cepe, o grupo pôde fazer um projeto mais robusto, colorido e com 116 páginas.

Ao ler os prontuários enxergou ali um material perfeito para a produção de uma HQ, com muitos ingredientes para um bom álbum de aventura. O obscuro fichário rendeu quatro histórias, ambientadas nos anos de 1934 a 1958: A perseguição aos vermelhos, Josephine Strike – A mulher sem ossos, Grande Hotel, e Os cossacos e o tabu. Em algumas delas, os roteiristas escolheram transcrever textualmente parte dos documentos. Na história de Josephine esses trechos estão em balões e colagens, um recurso que conduz a narrativa de forma tão verdadeira, embora com personagens fictícios.

A publicação é inspirada no projeto de pesquisa O obscuro fichário dos artistas mundanos, realizado entre os anos de 2014 e 2017. Os resultados do projeto de pesquisa, que inspirou a obra, estão no endereço eletrônico obscurofichario.com.br. São indícios da vida de mulheres e homens, brasileiros e estrangeiros, protagonistas de uma movimentação ocorrida no campo da arte e do entretenimento da cidade do Recife, entre as décadas de 1930 e 1950, que lançam luz sobre uma potente história cultural e política do estado e do país. Um mundo habitado por bailarinas acrobatas e sapateadores excêntricos, cantores de rádio e cossacos russos, pugilistas e ilusionistas, artistas teatrais e enciclopédicos.

Para a polícia de Vargas todos que estivessem de alguma forma ligados à cena do entretenimento eram considerados artistas e, portanto, fichados com prontuário na Delegacia de Ordem Política e Social. Nesse rolo entravam prostitutas, pugilistas e até espaços suspeitos, por serem lugares onde havia muita rotatividade a exemplo de hoteis, pensões, teatros, cabarés, agremiações carnavalescas, vigiados pela polícia. “O que queremos mostrar é a perseguição de governos autoritários aos artistas. Nossa memória referencia muito a ditadura militar e esquece que teve ditadura civil, a do Governo Vargas. Antes do Golpe de 1964, os prontuários já existiam, muita gente havia sido fichada, muitas famílias”, diz Clarice.

 

PERFIL DOS AUTORES

Mauricio Castro é pintor, desenhista e gravador, participou de diversos espaços coletivos, como o “Quarta Zona de Arte”, “Submarino”, “Peligro” e mais recentemente a “Gráfica Lenta” e Galeria MAUMAU onde vem desenvolvendo seus trabalhos de gravura em linóleo. Atualmente mora num sítio em São Lourenço da Mata com sua esposa Márcia e seus filhos Júlio e Gabriel e mais quatro cachorros, uma gata e 14 galinhas, além de inúmeras árvores e vegetais de vários tipos.

Clara Moreira é artista visual, nasceu e mora no Recife. Sua pesquisa artística desenvolve-se no uso do desenho simbólico e figurativo como linguagem de franca comunicação. Quase sempre desenha lápis de cor sobre papel. Ao longo da última década, criou com desenhos feitos à mão mais de 70 cartazes de cinema.

Paulo do Amparo aprendeu a desenhar influenciado por revistas de quadrinhos e desde criança desejava ser quadrinista, ou pelo menos super-herói. Como artista visual, ilustrou dezenas de capas de discos, cartazes, livros e camisetas para artistas e bandas, shows e filmes.

Greg Vieira é designer e ilustrador. Ganhou prêmios nacional e internacional, como Best News Paper Design, Prêmio JornalísticoVladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo, World Press Cartoon, entre outros. Foi colaborador das revistas Ragu (#saudades!) e Una e autor da Gregotins e Ficções Explanatórias Mentais. Integrou o coletivo Laboratório, onde editou e lançou a revista Fusão. É um dos fundadores da Livrinho de Papel Finíssimo Editora. É membro do coletivo Gráfica Lenta.

Clarice Hoffmann participa intensamente da cena cultural do Recife, atuando como jornalista e produtora cultural. Seu nome está associado à realização de dezenas de trabalhos, em diferentes linguagens artísticas, que ganharam projeção nacional e internacional. De sua paixão por arquivos e do desejo de contar a história de um segmento da sociedade brasileira marginalizado pelo Estado na Era Vargas, idealizou o projeto de pesquisa O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos e fonte de inspiração para a criação de uma novela gráfica, na qual atua como roteirista.

Abel Alencar é Co-roteirista do premiado curta-metragem “Resgate Cultural”, da Telephone Colorido, e DJ honorário do Atelier e Galeria Maumau. Mora no Recife com Cinzano e Nissei.

 

< voltar para home