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PATRIMÔNIO CULTURAL

Clube Elefante de Olinda celebra 70 anos de folia encarnada

O Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda completou 70 anos de vida em 2022 e foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2020.

 João da Silva Trindade, presidente do Elefante de Olinda. Foto: Danilo Souto

João da Silva Trindade, presidente do Elefante de Olinda. Foto: Danilo Souto

 ”Olinda, quero cantar. A ti, esta canção. Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar. Faz vibrar meu coração. De amor a sonhar, minha Olinda sem igual. Salve o teu carnaval”. Seja por exposição direta ou indireta à folia nas ruas da cidade Patrimônio da Humanidade, boa parte dos pernambucanos conhece esse refrão de cor. Composta por Clídio Nigro e Clóvis Vieira da Cunha, o frevo “Olinda n⁰ 2″ é mais conhecido como o “Hino do Elefante de Olinda”. O tradicional clube, que completou sete décadas de vida em 2022, foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2020.

Para seu João da Silva Trindade, 83 anos, presidente do Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda desde 2000, o reconhecimento representou uma grande conquista para a comunidade dos que fazem parte e amam a agremiação. “Se não fosse por ele, o clube já teria fechado”, diz.

Promovido pela Secretaria Estadual de Cultura (Secult-PE) e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), o Registro do Patrimônio Vivo tem como principais objetivos o apoio financeiro e a preservação dos processos de criação e divulgação de técnicas, modos de fazer e saberes das culturas tradicional ou popular do Estado. Mestres, mestras e grupos culturais recebem uma bolsa mensal vitalícia – que pode chegar a R$ 3.200 – para manutenção das atividades.

A história do Clube Elefante de Olinda começa em 1950. No carnaval daquele ano, um grupo de foliões parou na residência de Dona Linda, na Rua do Bonfim, após uma turnê etílica por várias outras residências. Em cima da geladeira da casa, os rapazes avistaram por um biscuit em forma de um famoso animal com trombas e grande dimensão.

Não se sabe ao certo se a compreensão repentina de que aquele enfeite poderia servir como alegoria carnavalesca iluminou a mente de um só indivíduo ou de vários. O fato é que resolveram desfilar pelas ruas de Olinda com o pequeno elefante e assim também o fizeram no ano seguinte.

A ideia de transformar aquele momento inusitado em diversão levada a sério, como diria o saudoso Chico Science, foi oficializada em 12 de fevereiro de 1952 – data da fundação do clube – pelos amigos Élcio Siqueira, Walter Damasceno, Alrivelto Lopes, Caio Gomes, Expedito, Marcone Felizola e Cláudio Nigro, o Mirula, filho de Clídio.

Apesar de não ter participado da criação do clube, seu João Trindade diz que sempre acompanhou a brincadeira e faz questão de informar que o Elefante nunca deixou de desfilar no Carnaval de Olinda. Mas, infelizmente, por conta da pandemia da Covid-19, essa tradição foi quebrada nos anos de 2021 e 2022.

Ainda assim, a agremiação não deixou a data comemorativa dos 70 anos sem festa e realizou um “desfile virtual”, em seu canal no YouTube, com a participação do maestro Oséas, que aconteceu no dia 27 de fevereiro de 2022. Em suas redes sociais, o clube deixou um recado para quem acompanhou a apresentação:

“É na garra. É na teimosia. É como acontece desde 1952! O Elefante de Olinda fez o domingo de carnaval mais uma vez! O nosso Clube é feito exclusivamente pela alegria e paixão do povo apaixonado pela cultura popular. O Elefante tem um compromisso com o frevo e o encontro de amigas, amigos e familiares seja de que forma for. O domingo permanece encarnado para estremecer o chão e a alegria explodir no ar!”

O evento ao vivo contou com depoimento do cantor e compositor Getúlio Cavalcanti, que aproveitou a ocasião para apresentar o frevo “Violação”, no qual cita o Elefante e que será incorporado ao repertório do clube.

Durante seus 70 anos de história, o clube contou com algumas participações especiais em seus desfiles. O cantor e compositor Chico Buarque e a atriz Marieta Severo já marcaram presença em antigos carnavais. Atualmente, alguns artistas acompanham o clube nas redes sociais e nos desfiles de rua, a exemplo dos atores Irandhir Santos e Armando Babaioff.

Um tema bastante marcante na história do clube foi “Carmen Miranda: A pequena notável”. Esse desfile foi realizado em homenagem a Carmen Miranda e a tudo que ela representa, o desfile contou com fantasias que faziam referência aos figurinos utilizados por ela e foram muito bem elaborados, chamando bastante atenção do público.

Dentre as apresentações e desfiles considerados mais memoráveis por integrantes do Elefante de Olinda estão aqueles, realizados em 2017, que fizeram referência a uma artista brasileira de renome internacional. Com o tema “Carmen Miranda: A pequena notável”, o clube homenageou a cantora, dançarina e atriz luso-brasileira, cuja estética serviu de inspiração para a construção do repertório, do flabelo e das fantasias naquele ano.

Novas gerações

Seu João defende e trabalha para que a agremiação atravesse os próximos anos e décadas. Para isso, ele luta para que o clube tenha uma sede própria e fala sobre os “Elefantinhos”. “São crianças que saem na frente dos desfiles de rua. A cultura, as raízes têm que permanecer vivas, para que haja continuidade de um folguedo tão bom e tão alegre”, exalta.

Além disso, o clube tem investido, desde 2016, na comunicação com o público mais jovem por meio de redes sociais como o Instagram, Youtube, Facebook e Twitter. Nesses canais, o Elefante de Olinda divulga e transmite eventos, desfiles e vende produtos relacionados à agremiação.

União pelo Carnaval de Pernambuco

O presidente do Elefante de Olinda também faz questão de elogiar outros grupos – como a Pitombeira do Quatro Cantos – e prega a união entre todos os coletivos e pessoas responsáveis pela folia.

A ênfase no discurso de paz de seu João se explica pelo outrora histórico de brigas entre integrantes das duas agremiações. As pelejas ocorriam em boa medida devido à disputa pela conquista dos corações dos foliões. Com suas fantasias e performances, Elefante e Pitombeira queriam mostrar a superioridade de um clube sobre o outro.

As contendas poderiam se iniciar a partir do estágio mais básico e até desejável, o do empenho em realizar a melhor performance, passando por intensos bate-bocas, até atingir o último e lamentável nível da agressão física.”O pessoal partia para o pau mesmo. Eram cenas lamentáveis”.

Felizmente, a situação atual não se assemelha a de décadas passadas. Hoje, a relação com Pitombeira é tranquila e marcada por um grande respeito mútuo entre os presidentes dos clubes. Situação que acaba por se refletir no sentimento e comportamentos do público que acompanha as duas agremiações, ainda que as provocações verbais sempre apareçam em tempos carnavalescos.

Ciente das imprevisíveis instabilidades emocionais que rondam a mente humana, inclusive a dos foliões, seu João reforça: “Carnaval foi feito para brincar, não para brigar. É preciso que a gente tenha esse bom senso e conscientize as pessoas do seu bloco, troça ou clube”.

A história do Clube Elefante Olinda – Patrimônio Vivo de Pernambuco

 

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