Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

PATRIMÔNIO CULTURAL

Mestre Nado: um escultor de sons

De oleiro a escultor de instrumentos feitos do barro, Mestre Nado nos ensina, sobretudo, sobre a a função de um artista de ir em busca de sua própria obra

Mestre Nado com a flauta que leva o nome do inventor: peça única e não está à venda

Mestre Nado com a flauta que leva o nome do inventor: peça única e não está à venda

Texto: Michelle de Assumpção
Fotos: Jan Ribeiro

O barro entrou na vida de Aguinaldo da Silva desde quando ainda estava na barriga da sua mãe. E nunca mais o abandonou. A mulher, provavelmente na falta de nutrientes, comia as tampas das quartinhas de barro que serviam para armazenar a água de beber. Agnaldo, apelidado de Nado ainda menino, nasceu e cresceu no bairro dos Bultrins, em Olinda. Suas primeiras memórias são das tardes a brincar num rio que passava ao lado da casa de sua avó. As margens eram fartas em argila e Nado levava carrinhos de lata, que voltavam para casa cheios de barro. No quintal da avó, modelava a massa, fazia panelinhas e outros objetos, e depois os deixava secar no sol. Sua habilidade com o barro fez com que, aos dez anos, fosse chamado para trabalhar como ajudante numa olaria. Fez tijolos, depois quartinhas, filtros de barro, piso de cerâmica e, num processo evolutivo de conhecimento da ciência do barro, transformou-se num mestre desta matéria prima.

O Mestre Nado, como é hoje é conhecido, não é só um ceramista. É um escultor de sons. A música chegou em sua vida depois do trabalho com o barro, mas também veio dele. É prática comum, segundo Nado, a dos oleiros trabalharem cantando. Entoavam principalmente boleros conhecidos, valsas e outras canções românticas, enquanto preparavam a massa e modelavam os tijolos. Nado descobriu que tinha afinação e gosto para a música nessa época.

Vendeu muitas quartinhas de barro no Recife, até que chegaram as geladeiras. A partir de 1960, mesmo os lares mais pobres começam a ter o eletrodoméstico. Ninguém comprava mais quartinha. Por isso, aos 16 anos, Nado mudou-se para Tracunhaém, onde as botijas ainda tinham saída, sobretudo nos engenhos na região. Paralelo ao trabalho de fabricação de quartinhas, ele comprou um violão e aprendeu a tocar.

Mais quatro anos e as geladeiras também se tornavam produto mais acessível para as famílias do interior, minando cada vez mais o negócio das quartinhas. Nado, então, voltou ao Recife e conseguiu emprego, com carteira assinada, na fábrica Só Cerâmica, para fabricar filtros de barro. No lugar, aprendeu várias técnicas de mesclagem do barro com outros produtos, com o objetivo de obter diversos tipos de argila, e consequentemente de cerâmica. “Aí, chegaram os Brennand e compraram a fábrica. Eles usaram as peças que a gente já havia queimado, pintaram com a marca deles e vendiam tudo. Fiquei um tempo parado, mas depois fui chamado por eles e fiquei fazendo aqueles cinzeiros grandes. Eram três peças que se encaixavam uma dentro da outra, na mesma  altura. Vendia muito aquilo ali”, conta Nado.

O trabalho na fábrica o aproximou do artista plástico e ceramista Francisco Brennand. Nado conta que foi ele quem propôs a Brennand fazer uma pasta diferente para suas esculturas, para que suportassem o alto calor do seu forno. Nado encontrou o ponto da massa e começou a esculpir suas próprias peças figurativas. Passou também a modelar as figuras desenhadas por Francisco Brennand.

“Eu usei a mesma massa de fazer os pisos, que se molhar fica maleável para fazer outras peças. A massa do oleiro não servia, era fina demais. Ele [Brennand], então, desenhava e eu modelei as primeiras esculturas. Aquelas mais curvilíneas dele, eu que fiz, ele só desenhava. Esculpi também aquele painel grande que tem as locomotivas, e fica ao lado do Museu do Trem”, conta Mestre Nado.

Mestre Nado em seu ateliê, no bairro de Caixa Dágua: produz e repassa a arte das esculturas musicais no barro

Mestre Nado em seu ateliê, no bairro de Caixa D’Água: produz e repassa a arte das esculturas musicais no barro

O artista, que já entendia muito de barro antes de trabalhar na fábrica de pisos de Brennand, aprimorou ainda mais seus conhecimentos sobre a ciência do barro neste período. Certa vez, conta que Francisco Brennand comprou todas as peças que ele fez. Mestre Nado sentia-se confortável e satisfeito, pois tinha seu trabalho reconhecido e valorizado por um artista de magnitude de Francisco Brennand. Mas, num certo dia, acordou decidido que era chegada a hora de seguir seus próprios passos. Ao receber a notícia de que Nado não queria mais trabalhar na fábrica, Brennand ficou surpreso, e quase não acreditou: “Nado, vou dar um tempinho para você voltar”, teria lhe dito o famoso escultor. Nado agradeceu, mas manteve a decisão e nunca mais voltou.

“Metade do que sei sobre argila aprendi lá. Fazia umas coisas minhas no horário de trabalho dele, e não tinha problema algum. Ele comprava minhas peças. Reconhecia minha criação, dava valor. Quando chegava visitantes lá, curadores, ele me apresentada como o artista que modelava as suas peças”, conta Mestre Nado.

Quando deixou a fábrica de Brennand para se aventurar em seus próprios caminhos, Mestre Nado largou também uma zona de conforto que lhe garantia moradia, e salário justo, e certo.  Em seu próprio ateliê, começou a fazer conjuntos de vasos. Vendia tudo, mas não tinha vontade de assinar seu nome, ainda não estava satisfeito com a criação. Acreditava que, se ficasse bonito e fizesse sucesso, logo outro artesão apareceria para imitar. A situação ficou difícil alguns meses depois quando uma enchente inundou sua casa e destruiu o pouco que havia conseguido produzir. Recomeçou do zero.

Numa tarde, matutando e experimentando técnicas para inovar sua produção, Nado lembrou que, quando criança, além das panelinhas de barro, ele aprendera com o tio a fazer apitos com o caule da folha do jerimum e da folha de coqueiro. Resolveu testar o mesmo apito, numa bola oca de cerâmica, que já vinha produzindo como objeto apenas decorativo. Nunca havia tocado nenhum instrumento de sopro. Não sabia como era. Partiu desse modelo simples: dois furos numa bola oca. Sentiu ali que tinha descoberto algo grande, especial.

Ocarina: primeira escultura de som do arsenal percussivo do Mestre Nado

Ocarina: primeira escultura de som do arsenal percussivo do Mestre Nado

“Uma amiga minha, a curadora Silvia Martins, uma apaixonada por arte, disse que eu tinha descoberto um caixa preta, e que eu ia fazer belas esculturas que cantam”, relembrou. Nado começou a incrementar suas peças, numa busca obstinada pela afinação perfeita. O formato das peças iam surgindo a partir da busca pelo som.

Nado é um poeta do barro e do som. Gosta de repetir a poesia que criou por esta época e que explica o desenvolvimento do seu trabalho. “Eu notei que era aquilo que estava querendo. O desafio continuava sendo a gente se manter no que sabe fazer. Faz porque gosta, gosta porque faz. Pesquisando, aprendendo e querendo aprender mais”, diz Mestre Nado, entre uma gargalhada e outra, que sempre pontuam suas histórias.

À primeira peça de sopro, ele deu o nome de Ocarina. Num processo contínuo de criação, criou ocarinas com duas, três esferas, maiores e menores. Foram muitas tentativas e erros até chegar ao primeiro instrumento que considerou digno de ser apresentado como uma obra de arte.

OS QUATRO ELEMENTOS - Quando descobriu a sua primeira peça, Nado voltou à fábrica de cerâmica de Brennand. O antigo modelador da fábrica não estava pedindo para voltar, queria apenas apresentar sua primeira grande peça: a Flauta Nado. “Ele enlouqueceu com aquele som, achou um negócio fantástico”, conta Nado que, àquela altura, havia se transformado não apenas num escultor de sons, mas num músico que levava ao público suas criações.

O conjunto da criação de esculturas musicais criadas por Nado é uma ode à criação do universo: terra, fogo, água e ar. Som e silêncio. Os quatro elementos também classificam naipes de instrumentos criados por ele ao longo de sua trajetória artística. Em 2019, o Governo de Pernambuco concedeu ao artista o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. “Eu percebi com esse prêmio que minha história estava sendo reconhecida”, diz o mestre, que há mais de 40 anos mora em Caixa D’Água, periferia de Olinda. Passa o dia no ateliê, um amplo galpão, construído ao lado da sua residência.

Os chamados Buns de Pele podem variar de tamanho e afinação e  são instrumentos da coleção da Terra

O nome “Mestre Nado”, com letras grandes na fachada, sinaliza o endereço. O sol de rachar da rua Barão de Steeple encontra, no interior do ateliê, boas árvores para fazer sombra: jambeiro e seriguelas, plantadas por Nado. Largas bancadas abrigam peças recém-esculpidas que secam antes de irem para um amplo e alto forno de alta temperatura, localizado ao fundo. Mestre Nado, que é também um especialista na construção de fornos, conta que já fez em torno de quarenta fornos, para escultores de todo Estado. Em breve, o seu passará por nova reforma.

Numa das mesas do ateliê, chama atenção uma peças que aguarda pela queima. Um chocalho formado por quatro esferas ligadas umas às outras por estruturas cilíndricas vazadas, também de argila. “Foram feitos de dentro para fora, não tem emenda, se não iriam rachar com a temperatura alta”, conta, entre gargalhadas. Essas coisas dentro do chocalho são sementes? ”Não, são bolinhas de barro, mas o som só vai aparecer depois que saírem do forno”, explica o Mestre.

Na parede do ateliê, um banner apresenta a classificação inusitada e poética que inventou para seus instrumentos, que são separados por sua ligação com os quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Entre os instrumentos da coleção Fogo estão os peixes-recos, de vários formatos e tamanhos. As peças recebem um corte como um pente fino ao longo de sua estrutura, e o som é tirado com uma vareta passando pelas estruturas. Mestre Nado explica que é uma peça do fogo porque a fricção da vareta no pente do peixe remete às formas primitivas de se extrair o fogo, a partir das batidas de uma pedra contra outra.

As peças da coleção Água são formadas principalmente pelos Buns D’água. São esferas (únicas, ou acopladas a mais uma, duas ou três) com bocas, por onde a percussão é feita. O mestre conta que difere de uma simples moringa por fazer dois sons, como se fosse um objeto que é mergulhado na água. O mestre Naná Vasconcelos adquiriu um Bum D’água do Mestre Nado e passou a usar em seu arsenal percussivo. Naná era impressionado com as possibilidades do instrumento.

Os Buns D'agua foram comprados até por Naná Vasconcelos e usados em seus concertos

Os Buns D’água – em variados tamanhos – foram comprados até por Naná Vasconcelos e usados em seus concertos

Também criou os Buns de Pele que, como o nome da já diz, são instrumentos percussivos, com o corpo de cerâmica, no mesmo formato dos conhecidos atabaques, ou djambês, forrados com pele de animal. Por fim, as peças do Ar, que foram as primeiras confeccionadas pelo mestre: ocarinas e Flauta Nado. As ocarinas, que surgiram como um apito, foram aos poucos ganhando outras afinações. Hoje, o mestre faz ocarinas de até dez dedos que atingem até três oitavas. “Estudei muito. Botava no forno e saía desafinada. Eu agarrado na pesquisa não fazia mais nada, até que cheguei nessa afinação da Flauta Nado”, conta o mestre, que vai buscar seu instrumento pessoal. O nível de afinação que atingiu com a flauta que usa em suas apresentações, ele ainda não reproduziu em nenhuma outra peça.

Já ofereceram um bom dinheiro pela flauta, mas essa ele não vende. Certa vez foi à França, participar de uma feira de música andina.  O maestro de uma orquestra filarmônica da Rússia soube dos inventos do mestre Nado e o convidou para participar num dos números da orquestra. Mestre Nado solou, ao lado dos músicos eruditos, uma cantata de Bach (Jesus Alegria dos Homens). “Já tinha ouvido a música, mas nunca havia tocado. Mas tenho esse ouvido muito bom, qualquer coisa que cantem, na hora mesmo eu saio acompanhando”, diz Nado, junto com mais uma de suas boas risadas.

Essa alegria é remédio para qualquer contrariedade, afirma o Patrimônio Vivo de Pernambuco. Aos 75 anos, sua rotina de trabalho começa cedo.  Às 5h já está de pé, se informando com os primeiros noticiários. Depois segue com seus estudos, pesquisas, ensinamentos e ensaios. “Todo dia é isso, fazendo e ensaiando meus instrumentos”, conta. Em 2015, por meio do Fundo de Incentivo à Cultura (Funcultura) do Governo de Pernambuco, o artista pôde finalmente gravar seu primeiro CD. O álbum, intitulado “Mestre Nado e os Sons do Barro” contêm seis faixas autorais e transita pelos ritmos pernambucanos, coco, frevo e xaxado. Todos executados, por Nado e seus filhos, com a Flauta Nado, Ocarina, e Buns de Pele e de Água.

< voltar para home