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PATRIMÔNIO CULTURAL

O rebatismo de Galo Preto

Aos 82 anos, mestre Patrimônio Vivo de Pernambuco lançou seu primeiro disco autoral no quilombo Rainha Isabel, onde nasceu

por Tiago Montenegro

A praça central da comunidade quilombola Rainha Isabel, na cidade de Bom Conselho, transformou-se em palco para um momento histórico na trajetória artística de um Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Mestre Galo Preto. Nascido em 8 de outubro de 1934, numa localidade próxima dali – o Sítio do Alecrim -, Tomaz Aquino Leão voltou à cidade natal no domingo, 13 de novembro de 2016, para lançar o seu primeiro disco autoral, após mais de 70 anos cantando coco de improviso pelo mundo.

Tiago Montenegro

Tiago Montenegro

Coquista voltou à terra natal para lançar seu primeiro disco, ‘Histórias que Andei’

“Tô feliz, alegre por estar pisando no meu solo, que é Rainha Isabel”, contou o mestre, entre um e outro preparativo para inaugurar, aos 82 anos, um novo momento em sua vida. “Fiz tanta coisa por aí, tantas apresentações, programas de televisão, mas o show importante é esse de hoje.”

Aos oito anos de idade, Galo mudou-se para Garanhuns com a família, incluindo os irmãos repentistas Preto Limão e Curió. Foi lá que, com nove anos, ao ver a mãe matando uma galinha, soltou sua primeira embolada: “eu nunca vi uma pinta que nem aquela, minha mãe matou a pinta pra fazer a cabidela”. A Pinta, primeira composição do mestre, é uma das doze canções que integram o álbum “Histórias que Andei”.

Tiago Montenegro

Tiago Montenegro

Público do show, que encerrou os festejos da padroeira da comunidade

Histórias. Muitas delas revisitaram o pensamento de Galo na noite do dia 13. “Meu pai, João Leão, foi fundador daqui, era muito respeitado. Lembro de uma vez, eu ainda criança, vi um homem dando em uma mulher na feira, saí correndo pra chamar ele. Quando chegou, muito corajoso, tomou logo o punhal do cara, chegou e resolveu!”

Tiago Montenegro

Tiago Montenegro

Antes do show, Galo conversou com os conterrâneos

Foi também no povoado rural que, com poucos meses de vida, “a prima Carminha” apresentou o bebê Tomaz para o batismo. “Minha madrinha de apresentar, como se dizia na época, ainda mora aqui, tá velhinha a bichinha”. Oito décadas depois, Galo comemora o que considera, enfim, seu batismo como artista. “O carro-chefe de um artista é o disco, a gravação. O batismo do artista é a gravação de um disco. Depois de tanto tempo, tô me registrando para o povo agora.”

Essa alegria que só sente quem, de fato, tem orgulho em se apresentar para o povo, marcou todo o show do mestre. Acompanhado por jovens músicos, além de cantoras e dançarinas de coco, o mestre provou, no palco, que sua memória também segue afinada: “Toda a minha vida fiz música de improviso, imagine só, agora, depois de oitenta anos, ter que decorar aquilo que invento pra poder cantar e não fazer feio”, revela.

Pois fez foi bonito! E bem acompanhado por duas mestras da tradição, as olindenses Ana Lúcia e Aurinha do Coco. “Toda vez que Galo Preto me chamar pra subir num palco com ele, eu vou. Também fico feliz por essa realização porque eu venho dele, sou mestra, mas vim dele”, narra Aurinha, reverenciando o coquista.

Entre o público presente, a agente comunitária de saúde Juliana Moraes também gostou da apresentação. “Já o conhecia do Festival de Inverno de Garanhuns, não sabia que ele era daqui, que coisa boa! É muito bom ver nossa cultura popular, esses nossos mestres se apresentando, especialmente para as crianças verem”, avaliou, ao final do show.

Tiago Montenegro

Tiago Montenegro

Com a mestra Ana Lúcia, a filha Lucinha, a mestra Aurinha do Coco e o fã que garantiu o primeiro disco do mestre

O disco

Com shows de lançamento apoiados pelo Sistema Secult e Fundarpe, ‘Histórias que Andei’ teve patrocínio do programa Rumos Itaú Cultural, conta com 12 faixas e foi gravado, masterizado e mixado no Fábrica Estúdios. “O pessoal ficou bastante encantado com minha habilidade no improviso. Eu só pedia pra soltarem o refrão e ligarem os microfones pra eu começar a puxar os versos, que saiam naturalmente. Tudo feito na hora. Quando eu paro pra ouvir as músicas, penso que ninguém vai acreditar que aquilo foi feito na base da improvisação”, brinca o mestre.

Foto: Juarez Ventura

Uma nova geração de músicos acompanha o mestre nos palcos. O grupo é formado por nomes como Emerson Santana, Paulinho Ogã, Dinda Salu, Italo Costa, Jaene Pereira, Lucinha Leão, Gabriela Sampaio, Surama Ramos, Valeria Wanda e Mirela Cavalcanti. “Eu fico muito admirado com essa adesão dos músicos da nova geração ao coco, porque eles não vão deixá-lo morrer”, comenta, satisfeito. A produção musical do disco é de Hugo Nascimento e o próprio mestre assina a direção. Os arranjos foram feitos com pandeiros, sanfona e o tradicional coco de trava-língua, raramente executado hoje em dia, mas sempre presente no repertório do mestre. A partir de dezembro, o público poderá adquirir o álbum e também escutá-lo nas principais plataformas de streaming.

Depois do show de lançamento no Recife, marcado para o próximo dia 1º de dezembro, Galo Preto embarca para São Paulo, onde também lançará o álbum, no dia 17/12, no Itaú Cultural.

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