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Secretaria de Cultura

Mulheres da Cultura refletem sobre o Dia 8 de Março

Adeildo Leite

Adeildo Leite/Arte

Dez representantes da cultura pernambucana falam da atuação feminina na construção das políticas públicas para o setor cultural no Estado

*Colaboraram Camila Estephania, Michelle Assumpção, Bruno Souza e Marcus Iglesias

Neste Dia Internacional da Mulher, se reascendem em todo mundo as pautas por igualdade de direitos entre os gêneros, mais respeito e dignidade, sobretudo para aquelas em situação de maior vulnerabilidade. Cada vez mais o mundo percebe que não são flores que precisam ser distribuídas pois, mais que celebrar, há muito que ainda precisa ser refletido e transformado em políticas públicas efetivas. Por isso que, na maioria dos países, este é um dia de muitas reuniões, conferências, encontros, cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual.

Como forma de contribuir para este debate, selecionamos a fala de dez mulheres representantes da cultura pernambucana. Mulheres que, nos últimos anos, além de seus ofícios dentro da produção cultural, também passaram a participar de um processo compartilhado de gestão, discutindo e interferindo em políticas públicas na área da Cultura, a partir dos três conselhos estaduais criados pela Secretaria de Cultura e Fundarpe: Política Cultural, Preservação do Patrimônio Cultural e Consultivo do Audiovisual. Confira abaixo os depoimentos:

Adeildo Leite

Adeildo Leite/Arte

Tereza de França – professora, pesquisadora, mãe de santo (presidenta do Conselho de Política Cultural)

“Esse é um tema extremamente amplo, complexo e, politicamente, a gente deve fazer uma discussão partindo do princípio da universidade, da participação da mulher no universo político, pra que a gente possa pontuar isso em Pernambuco. A presença feminina a nível mundial ainda é algo que se precisa ampliar, no qualitativo e quantitativo. Temos que considerar que fazemos parte de um mundo de origens machistas e patriarcais, o que reflete desde muitos anos o limite da presença da mulher, não só na política, mas em outros espaços como na educação e na cultura. Entretanto, várias mulheres conseguiram contar outra história, que reflete o empoderamento da mulher nos diferentes países, a partir de uma luta que vem sendo travada desde o início dos tempos. O dia 8 de março, destinado ao Dia Internacional da Mulher, mais do que uma expressão de comemoração, é uma possibilidade concreta que temos para se refletir sobre a mulher e o seu papel na história da humanidade. Aqui em Pernambuco poderíamos citar várias conquistas que as mulheres conseguiram estabelecer na política acadêmica e pública de uma forma geral. A Secretaria Mulher é um exemplo claro dessa luta, de uma forma poética e sensível. Hoje estou como presidenta do Conselho Estadual de Política Cultural, e tem sido um espaço realmente rico da política cultural do estado. Mas ainda falta muito e nós não chegamos nem próximo da realidade que queremos conquistar. É um percurso que estamos caminhando. Neste dia 8 de março, estaremos na Praça do Derby com um movimento para expressar a força feminina, levando nossa reflexão sobre essa data”.

Adeildo Leite/Arte

Beth de Oxum – Coquista, produtora, mãe de santo e comunicadora (conselheira de Política Cultural)

“Oito de março é um dia necessário para sociedade do Brasil e do mundo, para que reflita sobre a posição da mulher. A voz da mulher ainda está calada, e essa voz é uma necessidade. Marielle teve a vida ceifada por conta de sua voz. A gente precisa quebrar esse círculo vicioso do patriarcado, pois a mudança para uma sociedade mais plural passa pela participação efetiva das mulheres, pelo protagonismo dessas mulheres. Temos que mudar a cultura machista da violência, da porrada. Nós não nos reconhecemos em certas mulheres que estão hoje em espaços de poder, mas que não têm noção do que é ser mulher na base social desse país, sobretudo sendo pobre, negra, suburbana, arrimo de família. A gente tá num momento em que o poder que se institucionalizou no país diz que mulher é fraquejada. E a nossa história não foi contada ainda. A história da brasileira, da afro indígena, não foi contada por nós. Não diz quem foram nossas referências. E essa mulher que está na base, que recebe toda essa carga de exclusão, de desassistência, é uma guerreira, lutando por uma sociedade mais digna e democrática. O mundo só será melhor se respeitarmos a diversidade social, cultural e religiosa das mulheres. A gente não vai a lugar nenhum se as mulheres não estiverem na linha de frente dessa mudança”.

Adeildo Leite/Arte

Paula de Renor – atriz e produtora teatral (conselheira de Política Cultural)

“As mulheres sempre tiveram um lugar de destaque na cultura do nosso estado, seja na formulação, na fiscalização, ou na defesa das políticas públicas. No Conselho de Política Cultural nós encontramos conselheiras que são artistas, gestoras culturais, e que lideram e fazem valer a voz da mulher pernambucana e das fazedoras de cultura. Inclusive nas três presidências do CEPC, duas foram de mulheres. A primeira foi do antigo secretário de Cultura, Marcelino Granja; a segunda foi minha; e a terceira é a atual gestão de Tereza França. Fui a primeira presidenta do Conselho, por parte da sociedade civil, o que me orgulha muito porque é algo que ficará na história. Fico muita satisfeita por trilhar esse caminho dessa luta em defesa da nossa cultura”.

Adeildo Leite/Arte

Andala Quituche – produtora cultural e mãe (conselheira de Política Cultural)

“A participação feminina na construção das políticas públicas é essencial, pois durante muito tempo, dentro da cultura popular, as mulheres não podiam participar dos brinquedos e tradições culturais. Hoje, estamos à frente de vários grupos. E isso demonstra nossa força tanto artisticamente (liderando, dançando e cantando) quanto no fomento e transmissão de saberes das nossas tradições. A nossa atuação no Conselho de Políticas Culturais representa a voz de grupos minoritários que, mesmo não estando presentes às reuniões, dependem da nossa participação para terem suas pautas e demandas atendidas. Ser mulher em qualquer esfera política e social é ser/ter coragem e resistência. E ser mulher negra, como eu, é ter/ser duplamente coragem e resistência”.

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Ana Farache – jornalista, fotógrafa, coordenadora do Cinema da Fundação e da Cinemateca (conselheira consultiva do Audiovisual de Pernambuco)

“Nossa caminhada lembra um filme. Plano após plano. Cena após cena. Corte após corte. É com trabalho, ousadia e coragem que avançamos e atingimos (nem sempre, é verdade), o final que desejamos.”

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Ana Julia de Souza Melo – professora de Hotelaria e Turismo e diretora do Centro de Convenções da UFPE (conselheira de Preservação do Patrimônio Cultural)

“Há muitos anos, a mulher vem construindo a cultura, hoje em dia, ela tem seu espaço mais reconhecido. As mulheres têm conquistado tanto espaço nas próprias manifestações culturais, que muitas são hoje Patrimônios Vivos, além das que ainda não foram oficialmente reconhecidas, mas já são reverenciadas pelo público. Ver as mulheres ocupando cargos de gestão e vários outros papéis em todos os setores da cultura mostra a valorização da mulher nessa construção. Quando você traz a mulher pros cargos de gestão, você reconhece o conhecimento e a experiência dela para a construção cultural.”

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Anna Andrade – realizadora e produtora do audiovisual pernambucano (conselheira consultiva do Audiovisual de Pernambuco)

“O audiovisual pernambucano – e brasileiro têm avançado bastante nos últimos anos. Temos visto o quanto a união das mulheres se faz presente em coletivos, na direção de filmes, na sensibilidade do olhar, e o quanto esta união tem trazido resultados positivos e o nosso próprio fortalecimento. Este é um grande avanço, porém muito ainda precisa mudar, nas ações formativas, nos projetos, nos sets, na formação das equipes, na igualdade de cachês, no respeito em qualquer instância que seja… Ser mulher é lutar diariamente para estar viva. Simplesmente por sermos mulheres. Precisamos dialogar sobre o feminismo, sobre os direitos humanos, e precisamos ser ouvidas, respeitadas, precisamos parar de ser silenciadas. Que todos os profissionais do audiovisual consigam enxergar o dia de hoje como a representação maior de nossa luta para que nós mulheres possamos continuar atuando, produzindo, escrevendo, e vivendo de nosso trabalho.”

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Adélia Collier – designer e artista visual (conselheira de Política Cultural)

“Hoje a gente vive um momento de muita sabedoria porque a mulher já está desenvolvendo seu papel com mais pertencimento e conhecimento. E Pernambuco sempre foi um elo político de muita presença feminina. Acredito que hoje isso fica bem claro quando a gente vê os Conselhos do Audiovisual, de Política Cultural e de Patrimônio homenageando mulheres que são fortes e significativas no estado de Pernambuco. E dentro da política a gente tem visto que nós temos assumido cada vez mais nossa força. O próprio papel do CEPC, que tivemos presidentas em duas gestões, é um exemplo. Isso é muito importante, porque a mulher sempre foi um ser de empoderamento. Eu faço parte de uma geração de mulheres que sempre estiveram presentes, e é muito bonito o que a gente vê hoje, com a participação feminina cada vez mais respeitada nesse processo”.

Adeildo Leite/Arte

Mannuela Costa – professora de Cinema da UFPE, produtora audiovisual e ex-presidente da ADB (conselheira consultiva do Audiovisual Pernambucano)

“Em Pernambuco, nota-se uma forte atuação feminina na área das políticas culturais, tanto atuando entidades da sociedade civil quanto em conselhos e outros espaços oficiais. Essa atuação demonstra a real capacidade da mulher em representar os interesses coletivos, sem restrição de gênero. Mas essa atuação acaba gerando reflexões e traz visibilidade a questões que foram historicamente negligenciadas, principalmente, no que tange à representação e participação efetiva da mulher na produção cultural. Esse é um movimento que ganhou força nos últimos anos, mas que não começou ontem. É importante lembrar que muitas vieram antes de nós, atuando ora silenciosamente, ora não, mas pavimentando uma estrada na qual caminhamos hoje. Ainda há muito o que fazer, mas é preciso comemorar cada conquista!”

Adeildo Leite/Arte

Cleonice Maria – produtora cultural e presidenta da Fundação Cabras de Lampião (conselheira de Política Cultural)

“Na minha visão a participação feminina na cultura pernambucana é uma coisa que tem aumentado bastante. Em particular aqui em Serra Talhada nós somos a Fundação Cultural Cabras de Lampião, que é uma entidade dirigida por mulheres. Eu sou mulher, sou negra, vivo no Sertão pernambucano, e sobrevivo literalmente de cultura. Tenho percebido que as mulheres têm ocupado um espaço enorme com seus projetos, ações, articulações, e com a coragem e resistência de entender que o mundo cultural tem um espaço aberto que deve ser ocupado. É esse espaço que tenho estado por mais de duas décadas, e o que tenho mostrado é que é possível fazer isso: viver de cultura, trabalhar a resistência cultural do nosso estado. Pernambuco é ícone nessa percepção e hoje vejo grandes referências femininas. Aqui no Sertão nós temos As Severinas; em Olinda vejo a Beth de Oxum; Temos a Joana D’ark Ribeiro, no Museu do Poço Comprido, defendendo nosso patrimônio e acervos; além de Lia de Itamaracá e outras grandes mulheres. A gente consegue estar neste espaço e avançar na luta pra que a cultura pernambucana tenha sempre a presença forte da mulher.”

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