“Ao mestre, com carinho”
Poeta e declamador Chico Pedrosa é presença marcante no II Clisertão
Postado em: Literatura
por Leonardo Vila Nova
Dessas coincidências da vida que nos surpreendem, uma é carregada de poesia, e não à toa. Francisco Pedrosa Galvão nasceu no dia 14 de março de 1936, em Guabiraba/PB. Para os desavisados, este mesmo 14 de março é Dia da Poesia e, também, data de nascimento de Castro Alves, um dos mais importantes poetas do Romantismo brasileiro. E Francisco é o Chico. Chico Pedrosa, um dos mais aclamados poetas populares do Nordeste. Nesta edição do Clisertão, o seu nome é lembrado constantemente, e com enorme carinho e admiração, vale salientar. Seja nas conversas informais entre os escritores presentes, nas mesas de debate, pelo músico Lirinha, que se derreteu em elogios ao mestre que tanto lhe inspirou. A todo momento, o nome Chico Pedrosa parece rimar com “mestre”.
E para mostrar que, no auge dos seus 78 anos, continua em plena forma, com os pulmões potentes, a memória intacta e os versos afiados na ponta da língua, ele não se fez de rogado. Na manhã desta quinta (8), participou de duas atividades. Iniciou o dia participando do “Verso se bulindo”, ao visitar alunos da Escola Estadual Marechal Antônio Filho. Assim que chegou, foi ovacionado pelos jovens. Como reverência ao mestre, eles o receberam recitando o poema “O abilolado”, em forma de jogral. A cada aluno que recitava um trecho, o olhar enternecido de Chico era atento, admirado, às interpretações mais desenroladas, àquelas meio sem jeito, mas todos empenhados em traduzir, em suas falas, o jeito e os linguajares carregados típicos da obra de Chico Pedrosa. Em agradecimento, ele saudou os alunos e os presenteou com o que sabe fazer de melhor: declamar. E durante bons minutos, fez com que todas as atenções se voltassem para si. Quando Chico declama, a atenção fica firme e o riso afrouxa. Não tem jeito.
Chico Pedrosa é, sim, um mestre. Na arte de declamar, de encantar, de dominar o ambiente, de chamar a atenção pela sua naturalidade, pela sua desenvoltura, que vai se apurando cada vez mais com o tempo. “Um vendedor de sonhos”, como bem foi chamado, na ocasião. Quase ao fim da apresentação, os poetas Luís Serguilha e Abreu Paxe também vieram prestigiar Chico. Serguilha confessa: “Impressionante como as pessoas daqui tem esse poder da oralidade!”. Ao final, Chico demora a conseguir deixar a sala de aula, tamanho o assédio dos jovens. Feliz do poeta popular que percebe o interesse, a curiosidade e os olhos atentos e aguçados para atentar a cada uma de suas palavras e entonações.
Mas haveria ainda um segundo compromisso. E o público? Era ainda mais jovem. Crianças de uma escola municipal que participavam da inauguração da Biblioteca Itinerante, na Associação de Moradores do bairro de Cosme e Damião. Idades entre 6 e 8 anos. Chico chegou acompanhado de Paxe e Serguilha. O mesmo jeitão manso de se aproximar e de esperar sua vez de falar. Mas, quando convocado, mais uma vez, não deixa por menos. Conquista a criançada de cara, atenta para vê-lo falar. Alguns poeminhas marotos – mas atentos à devida classificação etária – e a risadagem corre solta, novamente. Bonito de se ver tamanha sinergia entre os pequenos e um senhor já tão vivido, tão sábio, tão sabido da vida. Luís Serguilha e Abreu Paxe também falaram às crianças, ainda atentas. No entanto, o terreno já havia sido preparado por quem tem décadas de experiência em se agigantar diante de plateias.
Esse é Francisco Pedrosa Galvão. Homem, poeta, mestre. Nascido no dia em que a poesia lhe batizou. E por onde quer que ele vá, ela sempre vai junto.


