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Mergulho nas ondas do mar de Lia de Itamaracá: biografia revela facetas desconhecidas da cirandeira

Editado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), o livro " Lia de Itamaracá: nas rodas da cultura popular" será lançado virtualmente nesta quinta-feira (14), às 17h30, numa live entre a autora da publicação Michelle de Assumpção e o editor Diogo Guedes. O bate-papo será trasmitido no perfil do Instragram da Cepe, o @cepeeditora

Alfeu Tavares/Divulgação

Alfeu Tavares/Divulgação

Além da história de Lia de Itamaracá, a biografia apresenta um ensaio fotográfico da cirandeira, clicado por vários fotógrafos pernambucanos, em momentos distintos da carreia da artista

Bruno Souza

Ainda que de longe, acompanhei o processo de apuração/escrita da biografia Lia de Itamaracá: nas rodas da cultura popular, que a jornalista Michelle de Assumpção lança oficialmente nesta quinta-feira (14), numa live especial com o editor Diogo Guedes. O bate-papo virtual será transmitido pelo perfil do Instragram da Companhia Editora de Pernambuco, @cepeeditora, a partir das 17h30. Parceiro de bancada na Assessoria de Comunicação da Secult-PE/Fundarpe (e de incontáveis happy hours, no Bar Central), a autora, vez por outra, chegava à nossa sala contando algum fato curioso sobre a mais célebre cirandeira pernambucana, da qual sentia um orgulho imenso de biografar.

Um deles, porém, me deixou surpreendido. Não tanto pelo fato em si, mas, sim, por ir de encontro à magnitude de Lia de Itamaracá, que, além de ser uma artista extraordinária, é extremamente carismática e desinibida nos palcos. Ao relato: “Lia é tímida. Para bular essa timidez e conquistar de vez sua confiança, resolvi me aproximar dela nos shows e nas inúmeras aparições públicas que ela faz. Numa dessas apresentações que acompanhei para observá-la e tentar extrair mais informações dela e das pessoas de seu entorno, quando cheguei ao camarim, ela já estava vestida para entrar no palco. Só que, mesmo pronta, Lia teve vontade de ir ao banheiro e, como naquele momento só havia homens no camarim, me dispus a ajudá-la. Mesmo envergonhada, ela topou. A partir desse episódio e de uma sucessão de conversas que tivemos na sua casa, lá na Ilha de Itamaracá, a cumplicidade feminina nos uniu e, aos poucos, fui descobrindo as várias facetas de sua personalidade”, disse-me a autora entre um gole e outro do nosso habitual cafezinho matinal.

André Zahar/Divulgação

André Zahar/Divulgação

A biografia marca também a estreia da jornalista Michelle de Assumpção na literatura

O resultado dessa aproximação está nas 216 páginas do livro editado brilhantemente pela Cepe, dentro da coleção Perfis, e que é um verdadeiro mergulho nas ondas do mar vivido, cantado e celebrado por Lia de Itamaracá. De sua infância simples à beira-mar nas praias de Jaguaribe e do Pilar, na Ilha de Itamaracá, aos títulos de Patrimônio Vivo e Doutora Honoris Causa (UFPE), a obra desvenda a história da pernambucana Maria Madalena Correia do Nascimento, mulher negra, merendeira e artista incansável da ciranda, que, aos 76 anos, segue encantando uma legião de fãs e admiradores nos palcos por onde pisa mundo a fora ou nas telas de cinema, já que vira-mexe é convocada para atuar em produções cinematográficas, como a participação que fez recentemente no longa “Bacurau”, dirigido pelos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Cepe/Divulgação

Cepe/Divulgação

O livro integra a coleção Perfis da Cepe que apresenta a história de personagens pernambucanas célebres

Tudo isso é narrado sob o olhar atento e sensível de Michelle de Assumpção, repórter que, além de pertencer a uma família de artistas (ela é filha do compositor J. Michiles), sempre priorizou, em suas pautas nos principais cadernos de cultura de Pernambuco, ampliar os espaços e vozes de artistas e grupos de cultura popular, historicamente invisibilizados pela imprensa tradicional.

Recentemente, pudemos trocar uma ideia (à distância) sobre o livro, que marca também sua estreia na literatura, e aprofundar algumas questões presentes nos 19 capítulos da obra, que já está à venda no site da Cepe: editora.cepe.com.br. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

1- Advinda de uma família de artistas, você deve manter uma relação tácita e extremamente afetiva com a arte e a cultura popular pernambucana. Dentro de suas memórias mais tenras, há algum registro do seu primeiro contato com Lia de Itamaracá e suas célebres cirandas?

Sim, e é uma memória inesquecível: eu estava numa roda, no meio de várias outras rodas, formada por jovens roqueiros da classe média recifense. A roda era de ciranda! O ano era 1998. E eu era repórter do Diario de Pernambuco e havia sido escalada para fazer a cobertura daquela noite do festival Abril Pro Rock (APR). Cheguei mais cedo, só para entrevistar Lia, escalada para uma das primeiras atrações da noite. Uma cirandeira num festival de rock, apesar de parecer inusitado, e é, para nós que vivíamos os anos 90 no Recife, era muito natural. O Manguebeat havia descortinado nossos artistas populares! Um ano antes, Selma do Coco, estourada com a música “A Rolinha”, havia tocado já no APR. Naquele ano, seria a vez de Lia. Eu me lembro da entrevista e depois da ciranda que dancei junto com o público, impactada com Lia, e todo significado de sua presença naquele momento. 

2- Como surgiu o convite para escrever a biografia? Por se tratar de uma perfilada com quase 80 anos de vida (e dona de uma trajetória artística internacionalmente reconhecida), quais foram os desafios que você encontrou para contar essa história? De que maneira o livro se estrutura? Fala um pouco do processo de apuração/escrita da obra.

Fui convidada pela Cepe no final de 2018. A pesquisa começou no início de 2019, precisamente no dia 12 de janeiro, aniversário de Lia, quando houve uma grande festa em Itamaracá, em sua homenagem. Voltei mais algumas vezes à ilha, enquanto também apurava em jornais antigos, entrevistas com outros personagens, e outros documentos. Fui elaborando uma grande reportagem sobre Lia, da qual não poderia desvincular da própria história da ciranda em Pernambuco. Um bem cultural que se desenvolve a partir da tutela do Estado, que é o principal fomentador das políticas de proteção e de incentivo aos artistas deste gênero. Não tinha como contar a história da artista sem passar por essa construção toda, que envolve o próprio gênero, os mestres que vieram antes dela, como Baracho e Dona Duda, passando por movimentos culturais que impulsionaram sua trajetória – como o Manguebeat – e até mesmo a cena atual, viva e pulsante da ciranda em Pernambuco. Lia perpassa todos esses tempos e espaços, numa trajetória ascendente que rompe as barreiras e os limites que foram sendo colocados. Porque ela leva consigo a ciranda – uma cultura que acadêmicos e gestores públicos abraçam como uma tradição a ser salvaguardada. Mas segue ignorando as limitações das políticas públicas de fomento, para se inserir, com sucesso, numa lógica que não é só da tradição, mas sobretudo do mercado. Resumindo, é essa a história que eu conto. 

3- Logo no começo do livro, você conta algumas das aventuras da sua biografada ainda criança pelas praias de Jaguaribe e do Pilar, na Ilha de Itamaracá. Apesar da simplicidade e do parco dinheiro, dá para perceber nas entrelinhas da obra que Lia de Itamaracá sempre manteve-se altiva e perseverante, diante das intempéries que atravessaram sua vida. Num momento que se debate tanto o conceito de “lugar de fala” e construção de novas narrativas, a partir da visibilidade de histórias que, por muitas vezes, são silenciadas, a intenção do livro é retratar essa outra face de Lia de Itamaracá, mulher aguerrida que, a despeito de tudo e todos, ganhou os palcos do mundo?

Prefiro dizer que o livro traz narrativas da história de Lia. Porque elas foram escritas por mim, a partir do meu olhar, e desse recorte que resolvi fazer. Por mais que eu tenha tentado dar um mergulho profundo em sua vida, sua história mais verdadeira é só sua. Envolve sentimentos, memórias, amores passados… Escrevi, sim, fatos mais íntimos, questões familiares, domésticas, porque o leitor de uma biografia está interessado em tudo que envolveu a construção da pessoa que ele admira. E, talvez, alguns desses fatos expliquem a artista que Lia se tornou. Se ela se impõe artisticamente, isso tem relação direta com os fatos que se sucederam em sua vida. Acho que só poderíamos falar de uma “nova narrativa”, se a própria Lia escrevesse. Aliás, ela tem feito cada vez mais isso: se apropriou de sua própria história, e a conta, do seu jeito, por onde passa, se assim for convidada. Queremos fazer um lançamento com ela, quando pudermos voltar a ter uma vida social. Se o livro contribuir para que Lia ganhe mais força e espaço para ter sua própria voz, ele terá cumprido também uma função mais importante.

4- Uma das responsabilidades que você toma para si, na biografia, é desvendar a verdadeira autoria da disputadíssima canção “Essa ciranda quem me deu foi Lia”. Dando voz a vários personagens (um dos pilares do bom jornalismo), é possível notar que você conseguiu conciliar todas as versões contadas sobre a origem da música à inegável notoriedade que seus versos deram à carreira de Lia de Itamaracá. Como mexer em algo tão espinhoso, sem magoar ou descreditar narrativas que estavam cristalizadas há tantos anos?

Não tem como começar a contar sobre a vida artística de Lia sem passar por esta canção. O fato é que, quando Lia faz sua estreia profissional (no Festival da Ciranda, em 1974, no Pátio de São Pedro) ela chega rompendo alguns paradigmas. Primeiro, é uma mulher. Praticamente só existiam “cirandeiros”, “mestres”, homens. Segundo: ela já é famosa. Não por conta de trabalhos feitos anteriormente, mas por conta de uma música que estourou em todo Brasil e até hoje é até hoje um hino da ciranda na Estado: “Essa ciranda quem me deu foi Lia”, que é gravada quase dez anos antes, por Teca Calazans, e depois pelo próprio Baracho. Nesta época, Lia ainda não havia começado sua trajetória na ciranda. Enfim, meu cuidado nessa questão da autoria da canção foi apenas de me ater aos fatos, contados pela própria Lia, Teca Calazans e outros que entrevistei, e às datas em que eles aconteceram.  

5- Outra característica marcante da biografia é o paralelo que você traça entre a vida de Lia de Itamaracá, a ciranda (e sua valorização ao longo dos anos) e outras manifestações da cultura popular, como, por exemplo, o coco, o fandango, o reisado e o pastoril. Que pontos de intersecção você encontrou nessas manifestações culturais e a própria trajetória artística de Lia?

O pastoril e o fandango foram as primeiras manifestações que chegaram à Ilha de Itamaracá e que estão na lembrança de Lia como o primeiro contato com a arte, com a música. O coco de roda, segundo nos conta Dona Duda, era dança de pescador, onde não cabia entrar criança. Daí, ela começa a usar os instrumentos dos batedores de coco para formar rodas com as crianças, na Praia do Janga (Paulista). Dali, a ciranda de Dona Duda cresce e vira um fenômeno turístico. É no local que acontece o primeiro e o segundo Festival de Ciranda que, com o sucesso que alcança, é transferido pela Prefeitura do Recife para o Pátio de São Pedro. É na quarta edição deste concurso que Lia faz sua estreia, ganhando o primeiro lugar. O evento reunia cirandeiros de todo Estado. Mestres que antes tinham maracatu e coco, passaram a fazer ciranda por conta do concurso. Então, sim, as brincadeiras populares estão umas ligadas às outras, pelos saberes e fazeres de seus próprios brincantes. Por isso, o livro se chama “Lia de Itamaracá, nas Rodas da Cultura Popular”, pois com a história de Lia tento alinhavar a história da própria ciranda no Estado.

Divulgação

Divulgação

Lia de Itamaracá e a atriz Sônia Braga, durante a gravação do filme “Bacurau”

6- Tendo trabalhado durante tantos anos como repórter dos principais cadernos de cultura do Estado, Caderno C (Jornal do Commercio) e Viver (Diario de Pernambuco), e, por conseguinte, na assessoria de comunicação da Secult-PE/Fundarpe, você deve ter acompanhado de perto a evolução/construção das principais políticas públicas implementadas na área da gestão cultural nos últimos anos. De que maneira esse conjunto de leis e dispositivos legais serviram para assegurar a preservação/difusão dos saberes/conhecimentos dos grandes mestres da cultura popular e, consequentemente, a participação desses artistas nas principais festas, ciclos e ações do nosso calendário cultural?

As políticas de preservação do patrimônio cultural em Pernambuco são referência em todo país. O Estado tem hoje nove bens culturais inscritos como Patrimônios Imateriais do Brasil. Entre eles, os maracatus (baque solto e baque virado), o frevo, o cavalo-marinho, o caboclinho. A ciranda está no processo de receber essa titulação também. Além disso, o Estado também fomenta um conjunto de políticas que envolve prêmios, participação dos mestres, mestras e grupos de cultura popular em festivais, ciclos festivos, além da titulação do Patrimônio Vivo, capacitações, e outras iniciativas. Lia de Itamaracá, que foi titulada Patrimônio Vivo de Pernambuco desde o primeiro edital do prêmio, em 2005, teve sua carreira artística, em diversos momentos, beneficiada pelas políticas públicas de cultura. E Lia dá um exemplo que pode servir para outros artistas e grupos, independente da manifestação que eles representam. Ela constrói sua carreira a partir da transformação do bem cultural que representa, a ciranda, em um produto. As políticas públicas, ao meu ver, podem proporcionar aos artistas esta “virada de chave”: conscientizar os fazedores de cultura da importância e do valor da sua manifestação e, a partir dessa tomada de consciência, eles próprios salvaguadarem o bem cultural que são detentores.

7- Voltando à biografia, um dos fatos mais curiosos que você relata no livro é o encontro de Lia de Itamaracá com o Manguebeat, movimento que, desde os anos 90, mudou radicalmente nosso olhar sobre a cultura popular. Apesar de bastante conhecida, você relata que a cirandeira havia caído no ostracismo e que, graças ao encontro com o produtor (e fiel escudeiro) Beto Hees e ao show realizado no Festival do Abril Pro Rock, em 1998, ela viu sua carreira ressurgir. O que há na obra de Lia de Itamaracá que estabelece diálogo/conexões com públicos e universos tão distintos?

Acredito que seja a noção de pertencimento do lugar de onde veio, Itamaracá, sua ilha, sua praia. Ser tão desta localidade, cantar daquela forma única, com aquela voz que só ela tem, a vida dos pescadores, dos amores que o mar leva, ou traz, tratar de situações tão do seu território, faz ela ser universal e poder então dialogar com outros que são universais, pelos mesmos motivos. O fato de ela nunca ter deixado a ilha, e estar indo cada vez mais longe em suas andanças, é uma prova disso.

8- Você credita essa universalidade à incursão de Lia de Itamaracá no cinema, por exemplo?

É o contrário. O cinema quis Lia justamente por conta da universalidade que ela carrega. Ela carrega Itamaracá, Pernambuco, mas traz também a África. No rosto e na voz de Lia, enxergamos continentes, enxergamos a história de muitas mulheres fortes, firmes, vencedoras.

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Lia de Itamaracá na cerimônia que lhe outorgou o título de Doutora Honoris Causa pela UFPE. O evento aconteceu em agosto de 2019, no Teatro Guararapes (Centro de Convenções)

9- No livro, você dedica dois capítulos inteiros a dois momentos-chaves da carreira de Lia de Itamaracá: a conquista dos títulos de Patrimônio Vivo do Estado, em 2005, e de Doutora Honoris Causa, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 2019. Esse reconhecimento, com toda certeza, catapultou sua trajetória artística a outro patamar e fez com o que sua arte circulasse por outros espaços. É possível afirmar que esses títulos conquistados por ela credenciam/abrem espaço para outros artistas da cultura popular?

Acredito que sim. Por muitos anos, a academia ignorou completamente os saberes e fazeres populares. Parece que isso está sendo revisto. Isso sim, é um grande passo para a construção de novas narrativas, como você falou no início. Temos muito o que aprender sobre o nosso território e a nossa identidade, a partir da sabedoria dos nossos mestres e mestras populares. Teríamos uma grande revolução na Educação e na Cultura do país se, desde muito cedo, os estudantes por exemplo tivessem acesso aos ensinamentos que podem ser apreendidos das brincadeiras populares.

10- Em vários momentos do livro, você ressalta a timidez de Lia de Itamaracá, como traço marcante de sua personalidade. O que mais você descobriu na vida de Maria Madalena Correia do Nascimento que não sobressai à figura mítica de Lia de Itamaracá dos palcos?

Lia é uma das mulheres mais simples que já conheci. Direta, de intuição muito aguçada, e que não consegue fingir simpatia. Se ela abrir o sorriso, é porque gostou e se sentiu feliz. Gosta mesmo é de suas amizades na ilha, andar naquela areia, de camisa, bermuda e chinelo, e cumprimentar todos os conhecidos que passam. Sentar no bar de Dona Rosa, pedir uma água de coco e jogar conversa fora. Depois disso, o que lhe agrada mais é arrumar as malas para viajar quando tem show fora. Começa uma semana antes e fica na ansiedade até chegar o dia. O palco é o seu templo, e ela o domina sem precisar de ninguém. A banda que corra atrás, porque ela canta o que quer, de acordo com o que sente vindo do público. Essa verdade de Lia é o que de mais encantador existe nela. 

11- Como as pessoas podem encontrar o livro? Além da live na quinta-feira (14), no perfil do Instagram da Cepe, @cepeeditora, vocês preveem outro evento de lançamento, pós-pandemia?

O livro já está à venda na estante virtual da Cepe e estará em todas as lojas físicas da editora, assim que acabar o isolamento social. Também está previsto um lançamento presencial, com a participação da cirandeira, e uma boa roda de ciranda ao final. Espero que seja em breve.

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