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Jomard Muniz de Britto: “ser contemporâneo é atravessar pontes”

por Leonardo Vila Nova

A cidade do Recife completa 478 anos nesta quinta (12). Juntamente com a cidade-irmã Olinda – que completa 480 anos, no mesmo dia -, forma o alicerce cultural urbano que deu cria a tantos mestres e artistas da nossa história. Alguns deles foram convidados a protagonizar a série Meu Lugar na Cidade, que destacará a relação de afeto que cada um mantém com um espaço dos dois municípios. Para a estreia, convidamos o multifacetado Jomard Muniz de Britto.

Costa Neto/Secult-PE

Nascido no bairro de São José, em 8 de abril de 1937 – quando o Recife acabara de tornar-se quatrocentão – o “mau velhinho”, como costuma se autodenominar, é responsável por uma obra literária e cinematográfica que ultrapassou os muros da universidade e chegou às ruas do Recife, através dos seus famosos “atentados poéticos”. Arauto do Ciclo Super-8 pernambucano, tropicalista de primeiríssima hora, filósofo pop, Jomard costuma transitar, em passos apressados, pelas ruas da cidade, destilando arte por onde passa. Um desses trajetos habituais é a Rua da Aurora, no bairro da Boa Vista, que estabelece conexões com diversos outros pontos do centro da cidade, através das pontes que passam pelo Rio Capibaribe.

Foi na mais poética rua do Recife, em março de 1964, que Jomard Muniz lançou Contradições do homem brasileiro (Editora Tempo Brasileiro), seu primeiro livro. À época, ele integrava a equipe do educador Paulo Freire, onde lecionava sobre “Dinâmica de Cultura”. “Fiz esse ensaio entre 1962 e 1963 e foi Paulo Freire quem leu, pela primeira vez, os originais do que veio a se tornar o livro, no Hotel Nacional, em Brasília, quando estávamos trabalhando”. Para o lançamento da publicação, Jomard recorreu, como de costume, a algo longe do convencional. “Eu não quis lançar esse livro numa livraria ou num lugar fechado. Quis que fosse, realmente, na Rua da Aurora”, conta Jomard. Por isso, ele convidou um funcionário da área de serviços gerais do SEC – Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife (atual UFPE), que se chamava Plácido, para ser o “garoto propaganda” do seu livro. “Plácido era uma figura muito diferente, meio esquisito, mas muito comunicativo e exuberante”. Foi então que Plácido fincou pé na Rua da Aurora (próximo à esquina com a Av. Conde da Boa Vista), anunciando aos transeuntes e aos quatro ventos o lançamento do livro de Jomard: “Leiam! Comprem esse livro do professor Jomard. Ele é o melhor do mundo! Ele é maior do mundo!”, relembra Jomard, com bom humor.

Costa Neto/Secult-PE

Costa Neto/Secult-PE

“A Rua da Aurora é onde a gente pode ver melhor ‘O cão sem plumas’, de João Cabral de Melo Neto (Jomard Muniz de Britto)

Entre o passeio dos populares, o anúncio espontâneo de Plácido em plena Rua da Aurora, propagandeando, a plenos pulmões, Contradições do homem brasileiro, um automóvel parou junto ao rapaz e o abordou. “Era o carro do governador Miguel Arraes, a caminho do Palácio do Campo das Princesas. Arraes perguntou a Plácido que livro era aquele e levou um com ele”, lembra Jomard. Poucas semanas depois do lançamento sui generis, veio o Golpe Militar de 1964. Numa tarde do mês de abril, Jomard foi à Livraria Nordeste, na Rua da Imperatriz, quando foi surpreendido pelo gerente geral, Aluísio, com a seguinte notícia: “Jomard, ainda bem que você não esteve aqui antes, pois um batalhão da Polícia esteve aqui e recolheu o seu livro”. No mês de setembro, boa parte dos integrantes da equipe de Paulo Freire foi presa. Jomard, em outubro.

Com uma história intensa, Contradições do homem brasileiro faz referências ao poeta João Cabral de Melo Neto, que, não por acaso, tem uma estátua sua na Rua da Aurora. Em meio a declamações para a estátua, para o Rio Capibaribe e para o Recife, Jomard relembra, por mais uma vez, a rua onde estreou no universo literário. “A Rua da Aurora é onde a gente pode ver melhor o Cão Sem Plumas de João Cabral de Melo Neto”.

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