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Isadora Melo: entre o caos e a calmaria

por Leonardo Vila Nova

Mergulhada numa “pequena grande metrópole”, que é o Recife, uma voz se destaca entre as tantas que compõem a frenética atmosfera sonora da cidade. Uma fala doce, entrecortada por uma risada solta… a voz da cantora Isadora Melo ecoa, suave, por entre edifícios e encontra pouso numa paragem que destoa do ambiente que, corriqueiramente, frequenta. Ela é uma das convidadas da série Meu Lugar na Cidade, que celebra o aniversário do Recife e Olinda. Atravessando a Ponte de Maurício de Nassau, em direção ao Bairro do Recife, Isadora chega ao Cais da Alfândega. Há pouco mais de dois anos, esse tem sido o lugar na cidade em que ela encontra a beleza bem vinda e necessária para refrear a agitação que o dia-a-dia típico de uma cidade como Recife lhe impõe.

Costa Neto/Secult-PE

Do Cais, mirando o Rio Capibaribe e o casario antigo que compõe a paisagem, ela faz observações sobre a sutil beleza que passa despercebida. “Essa é uma visão que, normalmente, não se dá tanta importância. Geralmente se presta mais atenção à vista de quem segue em direção ao Recife Antigo, vendo o Chanteclair, a Igreja da Madre de Deus. Mas o Recife possui essas pequenas belezas, escondidas por trás dos edifícios, que nosso olhar já se acostumou a ver diariamente”, diz Isadora. A observação de um primo, que havia voltado ao Recife, após um período na França, lhe chamou a atenção para uma forma diferente de sentir a cidade. “Ele disse que não imaginava ter tanta saudade do cheiro de peixe daqui (risos). E é uma coisa interessante, pois a cidade é feita dessa compreensão dos cheiros, das visões, das estruturas que, à primeira vista, parecem mal tratadas, mas quando você observa os detalhes, é incrível, é lindo, pois são coisas muito características daqui”, explica.

Além de cantora, Isadora é designer e trabalha n’A Firma, que integra o Coletivo Sexto Andar, no Edifício Pernambuco, bairro de Santo Antônio. Certa vez, em um trajeto da Livraria Cultura rumando de volta ao trabalho, ela teve um insight. Mudou o lado da calçada que costumava vir sempre, ficando mais próxima do rio. “Aqui eu parei, fiquei e me aquietei”, relembra. Do Cais da Alfândega, Isadora compartilha do mesmo ponto de visão de Ascenso Ferreira, cuja estátua está lá, rodeada por livros, algumas árvores e visitantes que veem o tempo passar, por vezes, aguardando o pôr-do-sol chegar e retocar de cores diversas o céu do Recife. “Às vezes, estamos tão acostumados a ver a cidade todos os dias e não percebermos esse charme que ela tem. Apesar de serem momentos distintos – a observação do meu primo e esse meu momento aqui com o Cais –, eles vêm reforçar essa coisa de renovar o olhar sobre a cidade, de voltar a olhar como criança”, emenda.

É esse olhar que lhe faz, quando indagada, retomar à memória imagens mais remotas de quando era criança, em que a mãe a levava para ver os blocos de carnaval que circulavam pelas proximidades. “Tinha o Bloco da Saudade, que sempre vem por essa ponte. Tinha o Madeira do Rosarinho, o Bloco em Poesia, que passavam ali pelo outro lado”, aponta. Após a revitalização da área, em que se ergueram a Livraria Cultura e o Paço Alfândega, Isadora passou a vivenciar mais ativamente o local. “Tenho uma memória muito musical daqui, com minhas primeiras saídas para o carnaval, o RecBeat, os shows no auditório da Livraria Cultura”, enumera, constatando, mais uma vez, que ali, naquele cantinho, está o melhor refúgio para se desgarrar, mesmo que por minutos, desses intensos dias de contemporaneidade. “O Cais da Alfândega é contemplar o caos à distância”, referenda Isadora.

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