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Guardiões(ãs) de São Gonçalo de Itacuruba

Situada na microrregião do Sertão do São Francisco, o pequeno município de Itacuruba, em Pernambuco, acolhe o grupo de uma manifestação cultural religiosa nomeada Guardiões e Guardiãs de São Gonçalo de Itacuruba, fundada em 1936. A Dança de São Gonçalo, de tradição católica-cristã, pode ser encontrada em diversas partes do Brasil, sendo, portanto, um ritual cujos elementos não são homogêneos e admitem mudanças e diferenças entre si. Seus membros são devotos de São Gonçalo, santo de origem portuguesa introduzido em terras brasileiras durante a missão jesuítica. Dona Maria do Socorro de Sá, moradora de Itacuruba, que chegou a participar da Dança quando criança, afirma: “dizem que São Gonçalo era um padre; ele fez um pensamento: como é que ia fazer pra tirar as mulheres ‘da vida’. Aí foi e estudou: eu vou pegar elas e vou dançar a noite toda e de dia elas vão dormir. Elas dançavam a noite, e de dia não podiam namorar porque estavam cansadas. Foi assim que ele tirou as mulheres ‘da vida’. [...]”. O grupo tem profunda relação com o município de Itacuruba, especialmente entre os mais velhos, mesmo diante de todas transformações sociais, econômicas e culturais ocorridas nesta população.

O grupo é composto por homens e mulheres, em sua maioria idosos, que formam um cordão, como na quadrilha junina, e dançam 12 ou 24 rodas, cada uma possui nome específico, , como “tesoura”, a “das costas” (em que se dança dando às costas), a “do pé”, umbigada, cochicho, entre outras. O ritual ocorre quando alguém faz uma promessa diretamente ao santo e os Guardiões (ãs) vão à sua casa, realizar a roda de São Gonçalo. “A gente tem por profissão [de fé] acompanhar o tocador, ele tocando e a gente dançando atrás”, relata dona Ermínia Maria da Silva, membra da agremiação. Embora seja um ritual religioso, há elementos profanos. Quem faz a promessa abre as portas da casa para o grupo, onde normalmente acontece a dança. Ele também é responsável por oferecer uma mesa farta de comida e bebida, sempre presentes na ocasião, além do transporte dos tocadores e dos que irão dançar. Com exceção dessas regalias, os Guardiões nada cobram pelo ritual. Vestindo roupas brancas, os membros dançam até a exaustão, num gesto que simboliza o ato do santo, que, segundo os relatos orais, dançava até ferir os pés, não por divertimento, mas pela missão de “salvar” as prostitutas. Os Guardiões de São Gonçalo vestem roupas brancas, as mulheres, usam saias longas, e os homens, calças. Não usam sapatos, nenhum adereço ou maquiagem. A banda musical é composta por rabeca, pandeiro, adufe e viola. A coreografia de uma roda dura cerca de 30 minutos, mas como são 12 ou 24 rodas, chegam a durar horas.

A religiosidade em Itacuruba é bastante forte, principalmente entre os habitantes mais velhos, no entanto, muitos deles se queixam de um distanciamento dos mais jovens em relação ao sagrado. Essa percepção se agravou principalmente quando ocorreu a construção da Barragem de Itaparica, em 1988 e a sede de Itacuruba precisou ser inundada e a população foi reassentada para outro lugar, com condições sociais e ambientais bastante diferentes. A partir de então, o município, que tinha como base produtiva a agricultura e a pesca, e chegou a ser apelidada de “Jardim Sertanejo” pela sua paisagem de outrora, vistosa pela sua riqueza natural e terras férteis, se viu diante de profundas mudanças nos diversos âmbitos da vida social. Assim, ao final da década de 1980, os moradores descontentes com a mudança brusca de localização e de estilo de vida, fizeram questão de levar, junto com eles, a imagem de Nossa Senhora do Ó, padroeira do município. Além da Dança de São Gonçalo, outra tradição religiosa muito frequente, era a dos penitentes, pagadores de promessa.

A “nova Itacuruba”, onde hoje os membros e membras da Dança religiosa realizam seu ritual, no entanto, situa-se distante do Rio São Francisco, sendo uma localidade praticamente isolada, com o solo impróprio para a agricultura, considerada área de desertificação. Isso causou profundos impactos naquela comunidade, de âmbito econômico, psicológico (o índice de pessoas com depressão, suicídio e patologias mentais aumentou significativamente) e cultural. Nesse sentido, ter uma manifestação tradicional dotada de significações para seus componentes, titulada Patrimônio Vivo de Pernambuco, reforça e assegura, entre outras coisas, a noção de pertencimento e os laços identitários de um povo que sofreu os efeitos nocivos do urbanismo moderno e do desenvolvimento econômico, além de trazer maior visibilidade para a comunidade como um todo. Diante da inevitável perda identitária decorrente da mudança de local do município, possuir grupo tradicional religioso que resiste ao longo do tempo, reforça o sentimento de coletividade dos habitantes da “nova Itacuruba”, salvaguardando o direito de existência do grupo e de estabelecer novos e antigos vínculos afetivos com o sagrado e com a vida cotidiana.