Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter
Cultura.PE

Mestre Ana Lúcia

De forte efervescência cultural, e de inegável contribuição para a cultura popular, o bairro do Amaro Branco, no sítio histórico de Olinda, Pernambuco, representa, em sua dinâmica cotidiana e nas práticas culturais, artísticas e religiosas, um território fértil onde a transmissão de saberes, as vivências de uma comunidade é passada geração a geração e cultivada nas ruas e lares. Nele, residem e se criaram personalidades que contribuem para manter as diversas tradições culturais vivas e pulsantes. Uma das figuras mais (re)conhecidas do bairro é a Mestra Ana Lúcia, coquista de roda, líder do pastoril Estrela de Belém e do Acorda Povo, tradicional procissão dançante que antecede os festejos juninos e recria o batismo de Jesus Cristo por São João Batista, de quem a mestra é devota. O ritual anuncia a chegada do ciclo junino, onde o coco, por sua vez, ganha seu destaque.

Rodeada de mestres e mestras da cultura popular do Amaro Branco, Ana Lúcia Nunes da Silva nasceu em 29 de março de 1944 e foi discípula e próxima de Dona Jovelina, que além de ter sido sua parteira, é personagem icônico na memória histórica do coco de Pernambuco. No ambiente doméstico, o coco também se fazia presente: Severino Nunes, pai de Mestra Ana Lúcia e grande referência para ela, tinha o costume de trabalhar em casa cantando sempre as melodias dessa manifestação trazidas de Nazaré da Mata, sua terra natal. Além disso, ele organizava grupos de pastoril e de coco, os quais estão presentes na memória afetiva de Ana Lúcia, desde os seus três anos de idade. Não tardou e a coquista assumiu a responsabilidade dos grupos que herdou, fazendo jus à frase que ouvia de seu pai desde pequena: “você já nasceu dentro da cultura”.

Em sua trajetória como coquista mulher, a Mestra enfrentou machismo por liderar um grupo de coco, função a qual, historicamente, era ocupada por homens. Mas, Ana Lúcia se impôs contra essas barreiras e, com amor e dedicação, insistiu na sua vocação. Por anos, assumiu o Coco do Amaro Branco, e posteriormente fundou o Raízes do Coco. Sua métrica e energia vocal nos embalam ao som da zabumba, do ganzá e do pandeiro. Por meio de sua música, participou de vários eventos culturais de relevância, como o Festival Brasília de Cultura Popular, Encontro de Coco Pernambucano, São Sambas, na Concha Acústica da UFPE, e o Encontro de Mestres das Culturas Populares – Folclorata, em Minas Gerais. Também está no filme “O Coco, A Roda, O Pneu e o Farol”, dirigido por Mariana Brennand Fortez, realizado no ano de 2007.

Todo esse legado Mestra Ana Lúcia carrega consigo, ensinando e transmitindo para crianças e adolescentes da sua comunidade e dos arredores de forma muito atuante. Criou o Estrelinhas de Belém, para formar jovens no pastoril, e o Estrelinhas do coco: “e vou cantando e vou ensinando a eles. E vou mostrando como sambar (coco) com os pés. Num instante eles aprendem (…) Eu quero fazer essas coisas pra, no dia que papai do céu me levar, ter alguém que diga ‘aprendi com a mestra Ana Lúcia’. Isso é um orgulho pra mim”, diz sobre o seu método de ensino, que vai da transmissão oral à pedagogia do exemplo, além de sempre ressaltar a importância de manter a cultura viva. É no quintal de sua casa, próximo ao Farol de Olinda, que acontecem os ensaios dos grupos, sendo um verdadeiro ponto de acolhimento e profusão da cultura na localidade: “minha casa tá de porta aberta pra eu ensinar”, afirma. Além dos grupos já citados, a Mestra também trabalha com mamulengo, teatro, e outras atividades que envolvem a comunidade.

E tanto trabalho tem seus frutos. O Grupo Estrelinhas de Belém já está na quarta geração desde que criou e já se firmou no circuito cultural do estado; seus filhos e netos também a acompanham na carreira artístico-cultural, seja cantando coco, seja no pastoril. “Eu já sou um Patrimônio Vivo. Eu fui criança, fui adolescente, fui moça, casei, e tô velha, dentro do coco”, diz a Mestra Ana Lúcia, demonstrando reconhecimento à importância e à valorização do que faz. Além do título de Patrimônio Vivo, obtido em 2020, a Mestra foi uma das primeiras a receber a titulação de Notório Saber em Cultura Popular pela Universidade de Pernambuco em parceria com a Secretaria de Cultura do Governo de Pernambuco, em 2021. Desse modo, do que depender da Mestra, as estrelas da cultura popular brilharão por muito tempo.