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Dona Menina do Alfenim

O doce é de origem árabe, mas foi em Agrestina, encravado no Agreste Central de Pernambuco, que o alfenim se tornou tradição no Estado. Açúcar, água e algumas gotinhas de limão são os ingredientes. As técnicas, as habilidades manuais, o olhar, a experiência, e principalmente, o “saber o ponto”, são o segredo. Esse modo de fazer, que exige ao mesmo tempo delicadeza e esforço físico, Maria Belarmina, conhecida por Dona Menininha do Alfenim, domina como ninguém. Nascida em 20 de janeiro de 1927, no Sítio Cachoeira, a doceira se tornou Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2020, pelo seu talento e pela grandiosa contribuição para a salvaguarda desse bem cultural imaterial pernambucano que é o alfenim, produzido há mais de cem anos na região, e cuja história remonta ao período colonial e à cultura do cultivo da cana de açúcar no Nordeste.

Quando tinha nove anos de idade, Dona Menina aprendeu com seu irmão, Pepeu, a moldar o alfenim em formatos de pássaros, cachimbos, corações, entre outros. Era como uma brincadeira. De seu pai, já havia herdado a sabedoria de modelar esculturas de barro. Desde então, carrega, em forma de doce, cultura e tradição nas mãos e em seus saberes. Quando adulta, Dona Menininha foi trabalhar na roça, mas isso não a impediu de dar continuidade na elaboração do alfenim. Pelo contrário, deixou a roça e passou a dedicar-se exclusivamente à venda e à produção desse doce artesanal. Vendia em feiras, especialmente na Feira de Caruaru – Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro reconhecido pelo Instituto de Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan – e em festas. Foi com esse ofício, juntamente com a renda do seu marido, agricultor, que foi possível manter os cinco filhos, que cresceram fazendo e modelando o doce. Embora dentre estes, apenas José Otaviano, conhecido por mestre Cazuza, e Dona Severina Maria, conhecida por Nênê, acertem o ponto exato do alfenim, toda família contribui e ajuda a manter viva a tradição.

É possível encontrar o alfenim sendo comercializado na casa de Mestre Cazuza e de Dona Nenê, nas feira-livres de Agrestina e das cidades do entorno, como Caruaru, na Feira Nacional de Negócios do Artesanato, Fenearte, e no Pátio 18 de Maio de Caruaru. No entanto, é no dia dois de fevereiro, na Festa de Nossa Senhora do Desterro, tradicional festa de Agrestina dedicada à padroeira do município, que o alfenim ganha seu protagonismo. Não por acaso, ele é conhecido por ter “sabor de saudade”, pois era comercializado nas festas da padroeira e, ao terminar a missa, as pessoas tinham o hábito de comprar e levar a doçura para casa. Dona Menininha relembra que sempre vendia o doce em frente à Igreja Matriz, com seu banquinho e seu tabuleiro.

De todas as linguagens contempladas no registro do Patrimônio Vivo de Pernambuco, a doceira, é, até o momento, a única representante do segmento gastronômico. O alfenim, presente há gerações, tornou-se uma espécie de “sobrenome” de toda uma família, e representa, portanto, além de uma relação afetiva, todo um sistema cultural, econômico histórico e turístico, e, que tem em Dona Menininha e seus descendentes, a demonstração de um legado que está sendo repassado para as gerações futuras. Embora a mestra não produza mais os doces para comercialização por questões de saúde, a arte da doceria e o legado de Dona Menininha, reconhecido pelo Estado com a diplomação, é uma das formas de salvaguardar parte significativa da cultura gastronômica pernambucana.

Além deste importante título, Dona Menininha obteve o título de Notório Saber em Cultura Popular pela Universidade Federal de Pernambuco, em 2021. A mestra e sua família já foram homenageados na Câmara Municipal de Agrestina, “pelo reconhecimento do mérito cultural e por tudo que eles têm feito pela cultura agrestinense e pernambucana”. Dona Menininha, mãe, doceira, mulher que não foge as suas lutas cotidianas, presenteia a nós e a sua família o saber-fazer de uma iguaria por suas mãos, já cansadas, mas sempre dispostas a adoçar nossas vidas.