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Walmir Chagas: recifense de amor e de revolução

Fotos: Costa Neto/Secult-PE

por Leonardo Vila Nova

Bem no coração da cidade do Recife, um coração retumba com toda força e orgulho! Despido da máscara e das presepadas maliciosas do Véio da Mangaba, está o múltiplo Walmir Chagas. Ator, compositor, músico, dançarino e pesquisador, suas inúmeras facetas revelam bem a alma do recifense, da qual ele tanto se orgulha: um povo guerreiro, que “se vira nos 30”. Convidado da série Meu Lugar na Cidade, Walmir se embrenhou pelas ruas do bairro de São José, onde nasceu, em 2 de abril de 1960, e onde aprendeu a amar seu povo, sua gente, trazendo vivas em suas memórias lugares, momentos e afetos.

Caminhar com Walmir pelo bairro de São José é ter uma aula de História de Pernambuco. Fã confesso de Frei Caneca, ele fala com gosto de um dos principais nomes da Revolução Pernambucana, que aconteceu em 1817. “Ele e vários heróis desta terra lutaram para que a gente se libertasse do Império português e para que se criasse o Brasil republicano, isso quase um século antes de se proclamar a República no país. Ele foi morto por causa disso, por essa causa que defendeu!”, exalta Walmir, em frente ao busto de Frei Caneca e ao muro onde o político e religioso fora executado, em 13 de janeiro de 1825. O monumento se encontra ao lado do Forte das Cinco Pontas, no Bairro de São José. “A bandeira de Pernambuco era a bandeira da Revolução de 1817. E nós somos o povo no Brasil que mais se orgulha da sua bandeira, que usa ela em camisa e vai com ela pra todo canto!”, continua, relembrando outros nomes que participaram desse momento histórico… muitos deles hoje batizando logradouros públicos e cidades. “Cruz Cabugá, Abreu e Lima, Frei Caneca. Só tinha ‘caba quente’!”.

Nascido na antiga Rua Augusta – atual Avenida Dantas Barreto, onde hoje funciona o Camelódromo –, Walmir conhece como a palma da mão cada canto do seu lugar de origem. Num misto de admiração e um pouco de desgosto diante da descaracterização de parte do casario antigo, ele recorre às mais claras lembranças, com exatidão. A Farmácia de Seu Pio, o Cinema Ideal, a casa onde viveu Solano Trindade e a Padaria do Leão não estão mais lá. Se transformaram. Mas o carinho de Walmir por cada lugar daquele continua intacto. Em direção à Igreja do Terço (onde Frei Caneca foi despojado do hábito religioso, para seguir rumo à sua execução) uma breve parada na Casa de Badia, para cumprimentar dona Maria Lúcia e refrescar a memória, entre prosas e sorrisos. “É aqui que está o Recife mais autêntico. Foi daqui, do bairro de São José, junto com Boa Vista e Santo Antônio, que o Recife surgiu”, afiança.

Tudo no bairro de São José parece respirar música, poesia, cultura. É como se na cadência dos passos que tecemos caminhando pelas ruas ouvíssemos o batuque dos sambas, dos maracatus, os cânticos negros ecoando por entre o casario. Walmir abraça isso tudo com um amor inabalável. O frevo também é evocado dali, nasceu ali. Dessa gênese, nos surgem aos ouvidos reminiscências dos sons das bandas militares e dos passos dos capoeiras, que deram origem ao ritmo pernambucano. “Nunca vi uma dança, um ritmo popular que tivesse tanto essa energia guerreadora como é o frevo! O povo fervendo na rua, e no subconsciente delas, o grito de liberdade, tirando de dentro de si todas essa vontade de libertação. Se o carnaval já é tomado como aquela coisa que se espera o ano inteiro, em busca dessa liberdade, o frevo é como se representasse essa guerra interna, de se libertar das opressões sociais, dos preconceitos”, conta ele.

Berço do frevo e de uma revolução popular, o bairro de São José reverbera por dentro de Walmir, e dele emana o Recife inteiro. “Esse é um lugar que respira revolução, liberdade. O bairro de São José é o cofre onde ficam guardados preciosos tesouros do Recife: a cultura e a dignidade do povo pernambucano”, arremata.

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