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Cultura.PE

Troça Cariri Olindense

Cidade: OLinda
Atividade/expressão cultural: Cultura Popular, Frevo

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Desde 1921, a troça Cariri Olindense mantém a tradição de abrir, às 4h, o domingo de Momo em Olinda

Lá vem o Cariri ali/ Com saco de pegar criança/ Pegando menino e moça/ Pegando tudo o que a vista alcança (…)“. Com esses versos, transformados em hino oficial, a Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense anuncia os primeiros raios de sol do domingo de Carnaval, em Olinda. Desde 1921, uma das agremiações carnavalescas mais tradicionais e antigas da Cidade Alta cumpre seu papel de sair sempre às 4h da manhã, do bairro de Guadalupe, percorrendo as ladeiras. No dia 20 de julho de 2016, o Cariri foi eleito Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco.

“Tem gente que não acredita como uma troça pode sair às 4 horas manhã. A prova é tanta que muitas pessoas ficam acordadas só pra ver o Cariri ou esperar a troça passar pra ir dormir. É muito comum ver gente de camisola na janela com os cabelos lá em cima. Ninguém dorme”, conta Danielle Maria, uma das diretoras da agremiação.

Jan Ribeiro

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A Troça realiza um importante papel social na comunidade em que está situada, no bairro de Guadalupe, Olinda

Para muitos moradores de Olinda, principalmente do bairro de Guadalupe, onde fica localizada a sede da troça, o Cariri Olindense tem papel de destaque por ser considerada a responsável pelo início oficial dos festejos na Cidade Alta que, na verdade, começam no domingo e não no sábado. Embora muito desta abertura tenha se perdido, o Cariri continua levando às ruas essa tradição, fazendo com que ela não se perca. Todos os anos, a saída da agremiação é marcada pela chegada do Homem da Meia Noite, que termina seu cortejo na sede em Guadalupe. Apesar de sair quatro horas depois do Calunga, o Cariri Olindense nasceu primeiro. O Homem da Meia Noite é, na verdade, uma dissidência do Cariri, que também desfila na terça-feira de Carnaval, encerrando os festejos às 20h, quando faz o percurso inverso, saindo da Praça do Carmo até a sede em Guadalupe.

Criada em 15 de fevereiro de 1921, O Cariri Olindense recebeu este nome de seus fundadores Augusto Canuto de Santana, Cosmo Botão, Jacinto Martinho, Isnar Colombo e Eugênio Cravina. Ao chegar no Mercado de São José, no centro do Recife, para comprar os materiais necessários para produção do desfile que acabavam de criar, os amigos se depararam com um vendedor de ervas muito peculiar. Não conseguiram o nome de batismo deste indivíduo, apenas seu apelido, “Cariri”. Retiraram uma foto do mascate e pediram a sua permissão para homenageá-lo em uma agremiação carnavalesca. A permissão foi concedida e, desde então, a Troça Carnavalesca Cariri sai às ruas.

Montagem

O nome Cariri é uma homenagem a um mascate que viveu nos anos 1920, quando a Troça foi inaugurada

Com longas barbas brancas e chapéu de palha, um homem fantasiado de Cariri sai em meio ao desfile. Ele anda em cima de um burro e carrega um saco que, segundo a lenda criada para o personagem, é usado para sequestrar criancinhas. Mas tudo não passa de uma brincadeira usada como argumento para as crianças não saírem de casa às madrugadas, enquanto o Cariri estivesse passando. “Montaram uma imagem de que ele vinha do Sertão para pegar as crianças e isso funcionou. Quando eu era menina, ficava torcendo pra que o velho passasse logo pra eu poder sair pra brincar na rua”, conta Danielle Maria, uma das diretoras do grupo

Não à toa, a história fictícia foi usada para compor a letra do hino que, segundo Romildo Canuto, atual tesoureiro e ex-presidente da Troça, recebeu a contribuição de nomes como Lídio Macacão, conhecido como o Conde de Guadalupe, carnavalesco e compositor ligado ao Clube Vassourinhas de Olinda, para o qual fez alguns frevos. “Lídio contribuiu muito para a cultura do Carnaval de Olinda. Ele tinha um histórico de ser bom de letra. Muita gente aproveitava que ele gostava de beber muito e vinha até Guadalupe pegar as letras dele. Dizem que Capiba e Nelson Ferreira levaram várias músicas dele desse jeito, botando ele pra beber”, conta Romildo Canuto.

Jan Ribeiro

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Aulas de frevo são promovidas durante todo o ano, na sede do Cariri, preparando os passistas para o Carnaval

Três gerações marcaram a história da Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense. A primeira delas é a família Canuto, que está presente na troça até hoje. Cada uma delas deixou contribuições importantes. A primeira geração ficou marcada pelo surgimento dos desfiles. Com a segunda, vieram as fantasias e as coreografias para as apresentações, além da preocupação com a sede do grupo. A primeira funcionou na casa de seu Romildo Canuto, que mora em frente à Igreja de Guadalupe. Em seguida, o grupo adquiriu uma sede com edifício próprio, conferindo um caráter mais profissional e dedicado à produção do carnaval.

A terceira e atual geração vem tentando dinamizar a agremiação, conseguindo patrocínios e divulgando o Cariri nas redes sociais e páginas virtuais. O grupo realiza um importante papel social na comunidade em que está situada, promovendo aulas de frevo durante todo o ano, preparando, inclusive, os passistas que irão desfilar na agremiação durante a Folia de Momo. A espaço físico também costuma ser cedido para que outras agremiações sem sede própria possam realizar ensaios e preparativos. Durante o período de carnaval, alguns destes grupos chegam a iniciar seus desfiles na sede do Cariri.

Jan Ribeiro

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Troça Cariri Olindense comemorou o título de Patrimônio Vivo durante cortejo nas ruas de Guadalupe, no dia 4 de setembro de 2016

Além de eventos relacionados ao carnaval, a sede também é usada para realização de aulas de ONGs, para atividades de faculdades, festas familiares, eventos escolares e, até mesmo, para velórios. Atualmente, os integrantes da agremiação tentam construir um pequeno museu para contar a história da Troça, possuindo um importante acervo com estandartes, fotografias e objetos utilizados durante o desfile, como por exemplo, a chave da abertura oficial do carnaval, que é a mesma utilizada desde 1921, produzida por fundadores da agremiação, com alguns reparos.